Carrancas: Do Folclore à Arte Contemporânea em Alta Valorização

Imagem de uma embarcação flutuando no rio São Francisco. Na proa, ela apresenta o que os ribeirinhos chamam de carranca, a representação simbólica da face de um monstro ou algo semelhante

As carrancas, esculturas típicas do Rio São Francisco, têm uma origem que remonta ao final do século XIX e início do século XX. Essas figuras zooantropomórficas, uma mistura de características humanas e animais, são colocadas na proa das embarcações com a finalidade de afastar energias e espíritos perigosos, proporcionando segurança aos navegantes. A nomenclatura “carranca” se popularizou a partir de 1947, quando essas esculturas passaram a ser vistas não apenas como instrumentos de proteção, mas também como objetos artísticos e decorativos.

O pesquisador Lucas Resende Moreira, ligado ao grupo de pesquisa Ana Gertrudes de Jesus, destaca a importância das carrancas no contexto histórico e cultural da navegação. Ele menciona que figuras semelhantes, usadas como amuletos de proteção, já eram conhecidas desde o Egito Antigo, onde figuras zoomorfas eram associadas a divindades e utilizadas em rituais de proteção para embarcações. As carrancas do Rio São Francisco, por sua vez, remontam a uma tradição que, apesar de ter se desvirtuado ao longo do tempo, recupera essa função mágico-ritualística.

A origem das carrancas está ligada a Francisco Guarani, um artesão local que se tornou conhecido pela arte de esculpir essas figuras. A trajetória das carrancas reflete uma rica mescla de influências culturais, incluindo a herança indígena, africana e europeia, que moldaram as crenças e superstições dos ribeirinhos. As carrancas evocam personagens do folclore local, como a Mãe d’água e o Caboclo d’água, que são parte do imaginário popular, representando seres que habitam o Rio e que estão associados a perigos e encantamentos.

Com o tempo, as carrancas passaram a ser vistas mais como objetos decorativos, especialmente após a década de 1940, quando sua função original foi sendo esquecida. A introdução de canoas mais rápidas na navegação do Rio São Francisco contribuiu para a diminuição do uso das barcas, que tradicionalmente apresentavam as carrancas. As canoas de Sergipe, mais eficientes e práticas, gradualmente substituíram as barcas, levando ao declínio das carrancas e à raridade das figuras folclóricas associadas.

Além disso, a construção de hidrelétricas e as mudanças na paisagem do rio geraram impactos culturais. Segundo Moreira, os ribeirinhos acreditam que a presença dessas figuras mitológicas foi afetada pela modernização e pela transformação do ambiente natural, o que contribuiu para a percepção de que personagens como o negro d’água e a mãe d’água se tornaram raros.

Em resumo, a trajetória das carrancas do Rio São Francisco ilustra a interseção entre arte, cultura e superstição. Embora hoje sejam mais vistas como objetos de decoração, sua história rica revela um profundo vínculo com as tradições locais e as crenças populares que moldam a identidade dos navegantes e das comunidades ribeirinhas. As carrancas, portanto, não são apenas esculturas; são testemunhas de uma cultura que, apesar das mudanças, ainda luta para preservar suas raízes e significados.

Fonte: Link original

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