Indígenas Tomam Balsa de Soja no Rio Tapajós em Protesto Contra Privatização das Hidrovias

Indígenas Tomam Balsa de Soja no Rio Tapajós em Protesto Contra Privatização das Hidrovias

Protesto Indígena Intercepta Barco de Grãos no Tapajós em Defesa dos Rios da Amazônia

Na última quinta-feira (19), um forte protesto indígena no terminal da Cargill, em Santarém (PA), avançou para o leito do rio Tapajós. Cerca de 400 pessoas, organizadas em quatro embarcações, bloquearam a passagem de um barco que transportava grãos na área urbana do rio, próximo ao porto da multinacional, que se encontra ocupado desde o dia 22 de janeiro. A ação é uma resposta ao Decreto 12.600/2025, que inclui as hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND).

Os indígenas afirmam que a proposta do governo federal visa realizar intervenções no leito do rio para aumentar o escoamento de grãos, sem a devida consulta prévia e informada às comunidades afetadas, como estipulado pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil. Auricélia Arapiuns, uma das lideranças da região do Baixo Tapajós, destacou a importância do rio para a comunidade: "Esse rio é nossa rua. É nossa fonte de alimento e essencial para o equilíbrio da floresta e do clima. Como transformar essa riqueza em corredor para soja?".

A mobilização busca pressionar o governo a revogar o polêmico decreto e anular um edital de dragagem do rio, que foi suspenso após duas semanas de protestos. Em dezembro, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) havia publicado um edital para a dragagem do Tapajós, com um investimento previsto de R$ 74,8 milhões, abrangendo cerca de 250 quilômetros do rio. A empresa responsável, DTA Engenharia, já acumulava multas ambientais por irregularidades em obras anteriores.

Desde o início da ocupação, os indígenas também mantêm bloqueado o acesso terrestre ao terminal da Cargill, uma das maiores indústrias alimentícias do mundo. "Já são 29 dias ocupando, e até agora só tivemos enrolação. O governo e o Congresso estão negociando a Amazônia enquanto muitos permanecem em silêncio", declarou Alessandra Munduruku, uma das principais vozes do movimento indígena. A Cargill, que atua no Brasil desde 1965 e é uma das principais exportadoras de grãos do país, não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

A luta dos povos indígenas se intensificou com a adesão de grupos como os Kayapó e Panará, que se uniram aos Munduruku e outros 14 povos do Baixo Tapajós. O decreto do governo Lula permite a concessão de "manutenção da navegabilidade", o que abre espaço para dragagens e intervenções para o transporte de cargas. Em 2024, a hidrovia do Tapajós transportou 14,6 milhões de toneladas de carga, e o Plano Setorial Hidroviário 2035 prevê um aumento para 66 milhões de toneladas.

Além da privatização das hidrovias, os planos do governo incluem a construção da Ferrogrão, uma ferrovia que ligará o norte do Mato Grosso ao distrito portuário de Miritituba, em Itaituba (PA). "O rio tem seu tempo, sua cheia, sua vazante. Quando aprofundam e alargam, rompem esse ciclo. O respeito ao limite do rio é fundamental para evitar desequilíbrios", enfatizou Maria Leusa Munduruku.

A tensão aumentou em Santarém após um incidente envolvendo o vereador Malaquias Mottin (PL), que tentou avançar com seu carro contra manifestantes indígenas. O caso gerou protestos e um pedido de impeachment na Câmara Municipal. Após esse episódio, a ocupação ganhou novos apoiadores, com a chegada de cerca de 50 indígenas Kayapó e Panará.

Os protestos em Santarém não se limitam apenas à defesa do Tapajós, mas também refletem um posicionamento contra a privatização dos rios da Amazônia. "Se o governo privatiza esses rios, acelera a pressão sobre nossos territórios", afirmou Takakpe Mektutire, do Instituto Raoni.

A mobilização continua, com a expectativa de que o governo ouça as demandas das comunidades afetadas e promova um diálogo que respeite seus direitos e a preservação dos recursos naturais.

Fonte: Link original

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