O boletim “Pressões e ameaças às terras indígenas em Mato Grosso”, publicado pela Operação Amazônia Nativa (Opan), revela que mais de 90% das terras indígenas do estado enfrentam pressões de processos minerários em seu entorno. Das 74 terras indígenas em Mato Grosso, 69 estão cercadas por 1.234 processos minerários, abrangendo 2,56 milhões de hectares. Este crescimento da mineração é alarmante, com o número de processos em Mato Grosso aumentando quase 130% entre 2018 e 2025, passando de 5.926 para 13.627. Atualmente, a área total vinculada a esses processos é de 22,5 milhões de hectares, o que representa cerca de 25% do território do estado.
O ouro é o mineral mais explorado, com 1,33 milhão de hectares em áreas de processos minerários, seguido por outros minerais estratégicos como cobre, diamante e manganês. Essa concentração em Mato Grosso não é acidental, estando relacionada ao Escudo Cristalino do Brasil Central, uma formação geológica rica em recursos minerais. As decisões políticas também têm contribuído para esse avanço, com a mineração se tornando uma prioridade na agenda de desenvolvimento do estado, resultando em facilidades no licenciamento ambiental.
Embora muitos processos minerários ainda estejam em fases iniciais, a ameaça é real e começa antes da exploração efetiva. A abertura de frentes de prospecção e a circulação de empresas aumentam a pressão sobre as terras indígenas. O boletim adota um critério de 10 quilômetros para medir os impactos da mineração, mas os efeitos frequentemente vão além desse limite, causando contaminação da água e desmatamento.
As terras indígenas mais afetadas incluem a TI Vale do Guaporé, com 143 processos minerários, e outras como Tadarimana e Escondido, que também enfrentam múltiplas ameaças. A bacia do Juruena exemplifica essa intensificação, com um aumento significativo de processos minerários em apenas um ano, elevando a pressão sobre o meio ambiente e os recursos hídricos.
Um aspecto crítico é a fase de pesquisa mineral, que já gera pressões concretas sobre os territórios indígenas. A aprovação de documentos como a Guia de Utilização tem sido usada para contornar a consulta aos povos indígenas, permitindo que a exploração comece antes da lavra formal, sem os devidos estudos de impacto ambiental.
Além do ouro, outros minerais estratégicos estão sendo explorados em áreas próximas a terras indígenas, o que levanta preocupações sobre a exploração econômica ligada à transição energética e ao modelo de desenvolvimento insustentável. Essa lógica de exploração, que se repete historicamente, é intensificada por um cenário de enfraquecimento das normas ambientais no Brasil.
Um caso emblemático é a TI Sararé, que enfrenta uma pressão minerária intensa, com 72 processos em seu entorno e um histórico de invasões e garimpo ilegal. O uso de substâncias tóxicas como o cianeto no garimpo representa grave risco à saúde ambiental e social da região. As operações federais têm sido recomendadas, mas a situação ilustra a interconexão entre a mineração legal e o garimpo ilegal, evidenciando a necessidade de ação urgente para proteger os direitos e o meio ambiente das comunidades indígenas.
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