Destaques:
- A Coreia do Norte condenou a guerra no Irã, reforçando sua aliança histórica e parceria em mísseis.
- O arsenal nuclear norte-coreano e o apoio estratégico da China são vistos como pilares da segurança do regime de Kim Jong-un.
- Analistas sugerem que o conflito no Irã fortalece a convicção de Pyongyang sobre a importância da dissuasão nuclear.
A recente escalada militar no Irã, envolvendo Estados Unidos e Israel, reverberou intensamente em Pyongyang, levando o líder supremo Kim Jong-un a uma profunda reflexão sobre a segurança e o futuro da Coreia do Norte. A nação asiática, que mantém uma “aliança de sangue antiamericana” com o Irã desde 1979 e uma parceria estratégica no desenvolvimento de mísseis, rapidamente condenou os ataques como uma “guerra de agressão injustificável”. Este cenário complexo coloca em evidência as estratégias de defesa norte-coreanas e as lições que Kim Jong-un pode estar extraindo da situação iraniana.
Historicamente, o Irã tem sido um destino crucial para as exportações de armas da Coreia do Norte, conforme revelado por um ex-diplomata norte-coreano. No entanto, especialistas em geopolítica apontam para diferenças significativas que posicionam a Coreia do Norte em uma situação de aparente vantagem em comparação com o Irã: seu consolidado arsenal nuclear e o inabalável apoio da China. Esses fatores são cruciais para entender a postura de Pyongyang diante das tensões globais e a percepção de segurança de seu regime.
O arsenal nuclear da Coreia do Norte como pilar de dissuasão
A confiança de Kim Jong-un em sua própria força, especialmente no que tange ao poderio nuclear, contrasta marcadamente com a postura de seu pai, Kim Jong-il, que se escondeu em um bunker durante a Guerra do Iraque em 2003. A Coreia do Norte é, na prática, um Estado nuclear, uma realidade reconhecida até mesmo por líderes globais. Relatórios indicam que o país possui cerca de 50 ogivas nucleares e material suficiente para produzir outras 40, além de estar nos estágios finais de desenvolvimento de uma arma nuclear tática.
Em julho de 2024, alertas da Coreia do Sul indicavam que Pyongyang estava próxima de desenvolver um míssil balístico intercontinental (ICBM) capaz de atingir o território continental dos EUA com uma ogiva nuclear, embora a eficácia de seu sistema de orientação e proteção da ogiva na reentrada atmosférica ainda seja objeto de debate. Em contrapartida, o programa nuclear iraniano, embora “muito amplo e ambicioso”, não apresentou evidências de um “programa estruturado para fabricar armas nucleares”, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). As restrições impostas pelo acordo nuclear de 2015 e as inspeções da AIEA, embora limitadas após a retirada unilateral dos EUA em 2018, ajudaram a desacelerar o programa iraniano. A Coreia do Norte, por sua vez, realizou seu primeiro teste nuclear em 2006, expulsou os inspetores da AIEA e conduziu mais cinco testes, o último em 2017, consolidando seu status nuclear.
A influência estratégica da China e o apoio à Coreia do Norte
A geografia desempenha um papel fundamental na segurança da Coreia do Norte, que faz fronteira com a China. Pequim vê Pyongyang como um escudo estratégico contra a influência dos EUA e da Coreia do Sul na região. Além disso, a China teme um fluxo massivo de refugiados em caso de colapso do regime norte-coreano. Essa relação, historicamente descrita como “lábios e dentes”, é cimentada por um tratado de defesa mútua assinado em 1961, o único desse tipo que a China mantém.
Embora a China possa não ver com bons olhos a expansão do arsenal nuclear norte-coreano, que desestabiliza a região, ou o fortalecimento dos laços entre Pyongyang e Moscou, especialmente após um acordo de defesa em 2024, a importância estratégica da Coreia do Norte para a China permanece inalterada. Kim Jong-un está ciente de que os interesses estratégicos chineses são firmes, garantindo um nível de apoio que o Irã não possui.
Relações com os EUA e a vulnerabilidade regional
As negociações entre a Coreia do Norte e os EUA, que culminaram em encontros históricos entre Kim Jong-un e Donald Trump em 2018 e 2019, visavam o fim das sanções internacionais em troca do desmantelamento da usina nuclear de Yongbyon. No entanto, a falta de um acordo mais abrangente levou ao fracasso das conversas. Apesar disso, a Coreia do Norte não atacou diretamente Trump ao condenar a guerra no Irã, e um congresso do partido em 2025 indicou a disposição de manter boas relações com os EUA, desde que seu status seja respeitado, deixando uma porta aberta para o diálogo.
Além do apoio chinês, a Coreia do Norte mantém a Coreia do Sul e o Japão como “reféns nucleares” devido à sua proximidade geográfica. A zona metropolitana de Seul está ao alcance direto de ataques norte-coreanos, e o Japão frequentemente vê mísseis norte-coreanos caindo em seu Mar. A capacidade de interceptação de mísseis desses países é questionada em comparação com nações como Israel ou os EUA. A presença de cerca de 80 mil tropas americanas na Coreia do Sul e no Japão, em contraste com os aproximadamente 50 mil no Oriente Médio, sublinha a relevância estratégica da região para os EUA.
A lição iraniana: dissuasão nuclear como garantia de sobrevivência
A guerra no Irã provavelmente reforçou a convicção de Kim Jong-un de que a posse de armas nucleares é a garantia máxima para a sobrevivência de seu regime. A percepção de que o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, estava “desamparado por não possuir armas nucleares” e de que as negociações com os EUA não garantem a segurança do regime, parece ser uma lição central para Pyongyang. A Coreia do Norte, que “sofreu muito ao longo dos anos para desenvolver sua capacidade de dissuasão nuclear”, agora acredita que tomou a decisão correta, dado que os riscos de atacar um país com armas nucleares são considerados altos demais para serem uma opção viável. Este cenário sublinha a complexidade da geopolítica regional e a centralidade do arsenal nuclear norte-coreano na estratégia de defesa do país. Para mais informações sobre notícias internacionais, visite BBC News Brasil.
Fonte: bbc.com






























