Kalshi: empresa de bilionária brasileira enfrenta polêmicas sobre ‘apostas em guerra’ e regulação

Legenda da foto, Luana Lopes Lara é cofundadora e diretora de operações da Kalshi

Destaques:

  • A Kalshi, cofundada pela bilionária brasileira Luana Lopes Lara, está no centro de controvérsias sobre mercados de previsão.
  • A empresa enfrenta debates acalorados sobre a legalidade de “apostas em guerra” e sua classificação regulatória nos EUA.
  • Desafios legais e questionamentos sobre o risco de informações privilegiadas marcam a expansão da plataforma.

A mineira Luana Lopes Lara, reconhecida pela revista Forbes como a “bilionária mais jovem do mundo que construiu sua própria fortuna”, ganhou destaque internacional por sua trajetória notável. Com um passado que inclui balé no Bolshoi, medalhas em olimpíadas de astronomia e matemática, e formação no prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT), Lara cofundou a Kalshi, uma empresa inovadora no setor de mercados de previsão. No entanto, em 2024, a Kalshi, onde Lara detém 12% de participação e atua como diretora de operações (COO), emergiu no noticiário em meio a intensas polêmicas.

A Ascensão da Kalshi e os Mercados de Previsão

A Kalshi se posiciona como uma das maiores empresas no crescente setor dos chamados mercados de previsão, que movimentou mais de US$ 44 bilhões em transações nos Estados Unidos no último ano. Essas plataformas permitem que usuários especulem sobre uma vasta gama de eventos futuros, desde resultados eleitorais e decisões de bancos centrais até questões mais inusitadas. A ascensão desses mercados ocorre em um contexto de mudanças regulatórias nos EUA, onde apostas esportivas e eleitorais, antes proibidas, começaram a ser liberadas.

Ao contrário das casas de apostas tradicionais, onde as probabilidades são definidas pela própria empresa, os mercados de previsão operam de forma semelhante a uma bolsa de valores. Neles, os usuários apostam uns contra os outros no resultado de eventos futuros por meio de “contratos de eventos”, que sempre resultam em um cenário de “sim” ou “não”. Este modelo permitiu que empresas como a Kalshi fossem supervisionadas pela Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), um regulador financeiro nacional.

Inovação Financeira ou Jogo de Azar Disfarçado?

A classificação da Kalshi e de outras plataformas de previsão é um ponto central de discórdia. Críticos argumentam que essas empresas, na verdade, realizam operações de apostas e jogos de azar, mas tentam se “disfarçar” como “bolsas de negociações” para evitar as regulamentações e impostos mais rigorosos impostos às empresas de apostas tradicionais, que são regulamentadas pelos Estados. Essa divergência tem gerado dezenas de batalhas judiciais nos EUA, com os Estados reivindicando seu direito de fiscalizar essas empresas, em vez de deixar a supervisão a cargo da CFTC.

No Brasil, a situação também gera discussões. Há relatos de que brasileiros acessam essas plataformas por meio de remessas internacionais com criptomoedas ou cartões. As plataformas de apostas brasileiras, que pagaram por outorgas significativas para operar no país, têm solicitado ao governo o bloqueio de empresas como a Kalshi, argumentando que elas não poderiam operar sem sede ou outorga no Brasil. A fundadora da Kalshi, por sua vez, já indicou que a empresa está em fase de expansão e estuda a possibilidade de abrir um escritório no Brasil.

A Polêmica das ‘Apostas em Guerra’ e Riscos à Segurança

Recentemente, a Kalshi e outras empresas do segmento atraíram atenção pública devido a apostas ligadas a ações militares envolvendo países como Irã, Venezuela e Israel. Críticos apontam que essas apostas podem infringir as regras financeiras dos EUA, que proíbem a negociação de contratos relacionados a guerra, terrorismo, assassinato ou outras atividades ilegais. Apesar das proibições, milhões de transações foram realizadas nessas plataformas.

Grupos de defesa, como o Public Citizen, têm exigido medidas mais rigorosas, alertando que esses aplicativos podem facilitar a especulação sobre conflitos, gerar riscos à segurança nacional e abrir portas para casos de informações privilegiadas e corrupção. Um caso notório envolveu uma aposta sobre a deposição do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, que foi posteriormente cancelada pela Kalshi. A empresa, no entanto, foi processada em uma ação coletiva por não pagar milhões de dólares a apostadores que alegam que a plataforma continuou aceitando contratos mesmo após notícias da morte de Khamenei circularem, o que a Kalshi nega, afirmando ter regras claras contra apostas envolvendo mortes e ter reembolsado os usuários.

Batalhas Legais e o Futuro da Regulação

As controvérsias não se limitam a eventos geopolíticos. A procuradora-geral do Arizona acusou formalmente a Kalshi de aceitar apostas ilegais em resultados eleitorais e eventos esportivos no Estado, alegando que a empresa opera um negócio de jogos de azar sem licença. A Kalshi enfrenta problemas legais semelhantes em outros Estados, que a acusam de operar jogos de azar sem a devida permissão. A empresa, com sede em Nova York, defende-se argumentando que suas atividades são mais próximas da negociação de mercado e que, como uma bolsa de “contratos de eventos” regulamentada federalmente, estaria fora do alcance das autoridades estaduais.

Diante desse cenário, parlamentares nos EUA têm defendido mudanças na legislação. O congressista Ritchie Torres, por exemplo, apresentou um projeto de lei para proibir funcionários do governo de negociar em mercados de previsão se possuírem “informações relevantes não públicas” relacionadas a uma aposta. A fiscalização do setor intensificou-se no governo Biden, embora tenha recebido uma acolhida mais favorável durante a presidência de Trump, cujo filho, Donald Trump Jr., atua como consultor e investidor em empresas do setor. A Kalshi reitera que proíbe explicitamente qualquer forma de negociação com informação privilegiada em sua plataforma.

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Fonte: bbc.com

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