Caminhada do Silêncio: 40 Anos de Memória e Resistência nas Ruas

Manifestantes participam da 5ª Caminhada do Silêncio, em São Paulo, com flores, velas e cartazes em homenagem às vítimas da violência de Estado

A Caminhada do Silêncio, evento que ocorrerá em São Paulo no dia 29 de outubro de 2023, celebra sua 6ª edição, começando às 16h em frente ao antigo DOI-Codi e seguindo até o Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Ibirapuera. Criada em 2019 como resposta à convocação do então presidente Jair Bolsonaro para “comemorar” o golpe militar de 1964, a marcha se inspira na Marcha del Silencio de Montevidéu, que há mais de trinta anos homenageia as vítimas da ditadura no Uruguai. A procuradora Eugênia Gonzaga, uma das fundadoras do Movimento Vozes do Silêncio, recorda que a primeira edição superou as expectativas, reunindo mais de 10 mil pessoas, que iluminavam a praça com velas e cantavam em memória aos mortos.

Desde então, a marcha se tornou um importante símbolo de resistência e memória no Brasil, estabelecendo um elo entre as violações de direitos humanos do passado e as questões atuais, como a violência policial que afeta principalmente as comunidades periféricas. Vera Paiva, psicóloga e filha de um deputado assassinado durante a ditadura, destaca que o cortejo agora abriga mães de jovens vítimas da violência policial, mostrando que as lutas por justiça e memória são contínuas e interligadas.

O historiador César Novelli observa que a marcha também carrega a história de repressão militar. A cada edição, o trajeto é cuidadosamente escolhido para refletir esses eventos históricos, e a recente censura da Polícia Militar a algumas rotas reforça a resistência do movimento. Quase 40 anos após o fim da ditadura, o Brasil ainda lida com um legado de impunidade, com milhares de casos de desaparecimentos e assassinatos não resolvidos.

A 6ª edição da Caminhada do Silêncio ocorre em um momento em que as questões de memória, verdade e justiça voltaram ao centro do debate político, especialmente após a condenação de militares envolvidos em atos golpistas. A procuradora Gonzaga enfatiza a importância da responsabilização, apontando que a impunidade que perdurou por décadas alimentou a continuidade da violência de Estado. O Supremo Tribunal Federal também está revisitando a Lei da Anistia, que pode abrir caminhos para a responsabilização de crimes cometidos durante a ditadura.

A recriação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos em 2024 trouxe novas esperanças para as famílias que buscam justiça e reconhecimento. Gonzaga e Paiva relatam o impacto emocional e social da retificação das certidões de óbito de vítimas da ditadura, que finalmente reconhecem essas pessoas como vítimas de violência estatal.

A Caminhada do Silêncio se destaca, não apenas como um ato memorial, mas também como um espaço de resistência contra práticas autoritárias contemporâneas. Vera Paiva e César Novelli alertam para o crescimento de estruturas de repressão que persistem no Brasil, reafirmando a necessidade de um engajamento contínuo das novas gerações na luta pela democracia e pela memória. Com o lema “Aprender com o passado para construir o futuro”, a caminhada reafirma seu compromisso com a pacificação e a justiça, desejando que as lições do passado não sejam esquecidas e que novas vozes se unam à luta por um Brasil mais justo.

Fonte: Link original

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