Os primeiros registros sobre a região do Saco dos Tapuias, atualmente conhecida como Aramari, datam dos séculos 18 e 19. A documentação oficial e a memória popular revelam que as técnicas culturais e de resistência dos povos afro-indígenas que habitavam essa área são fragmentadas. Os Tapuias, ou Tapuios, eram como os colonizadores chamavam os povos da etnia Kiriri, que viviam no interior, enquanto os indígenas Tobayáras, que habitavam a costa baiana, os denominavam assim. A palavra “Tobá” significa rosto, referindo-se às terras que ocupavam, enquanto “Ará” significa senhores, indicando que eles eram considerados os senhores das terras costeiras. Em contraste, os Tapuias eram vistos como selvagens, isolados e avessos à civilização, dominando as terras do interior.
Por volta de 1619, a área incluía partes dos rios Real, Itapicuru, Inhambupe, Jacuípe e a Vila de Água Fria, que hoje corresponde a Aramari. Essa região foi doada em sesmarias aos irmãos João Peixoto Viegas e Felipe Peixoto, em reconhecimento a suas ações na repressão aos indígenas, descritos como “bárbaros”. As incursões violentas no sertão aumentaram as tensões entre colonizadores e indígenas, culminando na “Guerra dos Bárbaros” a partir da segunda metade do século 17. Essa guerra foi caracterizada por uma resistência prolongada contra a expansão colonial.
Apesar da resistência indígena, o expansionismo colonial resultou na abertura de novas rotas para o escoamento da produção agropecuária e na ocupação de terras. A Estrada das Boiadas, a mais antiga dessas rotas, cortou o território de Aramari e facilitou a ocupação da região. A presença de pequenos rebanhos e a consequente ocupação territorial foram fundamentais para o povoamento da área, que se caracterizava por agrupamentos humanos dispersos.
A consolidação da Estrada das Boiadas é vista como um marco do contato violento entre os habitantes locais e os colonizadores, um fenômeno que se reflete tanto no imaginário popular quanto na paisagem da região. O “mito da boiada” é um exemplo desse legado colonial, descrito como uma “boiada invisível, mas audível”, que atravessa e perturba a cidade durante a madrugada. Esse mito se entrelaça com as memórias de resistência e a luta dos povos indígenas e afrodescendentes, que, apesar da opressão, mantiveram suas tradições e modos de vida.
A história de Aramari e sua ocupação colonial é, portanto, um testemunho das complexas interações entre diferentes culturas e povos ao longo dos séculos, marcadas por conflitos, resistência e a busca por identidade em um contexto de exploração e violência. A narrativa dos Tapuias e Tobayáras ilustra a luta por reconhecimento e a construção de uma memória coletiva que ainda ressoa na atualidade, refletindo a necessidade de resgatar e valorizar as culturas locais diante da história colonial. Essa perspectiva é fundamental para entender a formação social e cultural da região e as dinâmicas de poder que perduram até os dias de hoje.
Fonte: Link original































