Estudo do Unicef Revela Percepções Enganosas sobre Alimentos Ultraprocessados entre Crianças no Brasil
Um novo estudo do Unicef, divulgado nesta terça-feira (31), traz à tona preocupantes dados sobre a percepção de cuidadores em relação ao consumo de alimentos ultraprocessados por crianças de até 6 anos no Brasil. A pesquisa, realizada em parceria com a Novo Nordisk, revela que muitos responsáveis consideram esses produtos como saudáveis, o que pode impactar negativamente a saúde infantil.
De acordo com o levantamento, 52% dos cuidadores acreditam que iogurtes saborizados são benéficos, enquanto 49% têm a mesma opinião sobre nuggets preparados na fritadeira elétrica. Alimentos como sucos com açúcar e peixes fritos também são vistos de forma similar, com 68% e 63% de aprovação, respectivamente.
Metodologia e Participantes da Pesquisa
A pesquisa abrangeu três comunidades urbanas: Guamá, em Belém; Ibura, em Recife; e Pavuna, no Rio de Janeiro. Na fase qualitativa, participaram 80 pessoas, incluindo mães, cuidadores e líderes comunitários. Na etapa quantitativa, 514 responsáveis responderam a questionários. A análise dos dados utilizou o Modelo de Determinantes Comportamentais (BDM) do Unicef, que considera fatores psicológicos, sociológicos e ambientais.
O relatório aponta que, embora os cuidadores consigam diferenciar alimentos saudáveis de não saudáveis, a forma de preparo e a apresentação dos produtos influenciam suas percepções. Termos como "processado" e "ultraprocessado" não são reconhecidos pela maioria dos entrevistados.
Desafios da Rotulagem Nutricional
Desde 2022, o Brasil implementou a rotulagem nutricional frontal, destinada a alertar sobre altos níveis de açúcar, sódio e gordura. Contudo, 55% dos participantes afirmaram que nunca prestaram atenção nessa informação ao comprar alimentos. Além disso, 62% relataram que nunca deixaram de adquirir um produto devido aos selos de alerta, e apenas 8% acreditam que esses produtos são mais saudáveis.
Stephanie Amaral, especialista em saúde e nutrição do Unicef, ressalta que a rotulagem deveria facilitar escolhas alimentares saudáveis, mas isso ainda não está ocorrendo. A falta de educação nutricional e estratégias de comunicação direcionadas à população de baixa escolaridade são apontadas como fatores críticos.
Impactos Sociais e Econômicos
Raphael Barreto da Conceição Barbosa, pesquisador da Fiocruz, destaca que a desinformação é alimentada por estratégias de marketing da indústria alimentícia. Imagens de frutas e selos de produtos veganos podem criar uma falsa impressão de saúde. Embora 45% dos participantes tenham mudado suas escolhas alimentares com base na rotulagem, a maioria ainda ignora essas informações.
O estudo também revela que fatores sociais, como o preço dos produtos e a sobrecarga das mães, estão relacionados ao aumento do consumo de ultraprocessados. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) de 2022 indica que cerca de 90% das mães são responsáveis pela compra e oferta de alimentos às crianças, o que pode contribuir para a pressão e a busca por soluções práticas.
A Necessidade de Ações Concretas
Os especialistas concordam que a percepção de alimentos ultraprocessados como uma conquista é uma realidade que precisa ser desmistificada. Eles enfatizam a importância de informar a população sobre os riscos à saúde associados a esses produtos, além da necessidade de educação em saúde nas escolas.
O relatório do Unicef ressalta a urgência de reforçar a regulação sobre alimentos ultraprocessados destinados a crianças e adolescentes, incluindo aspectos como publicidade infantil e promoção de ambientes escolares saudáveis. Além disso, são sugeridas medidas para expandir creches e escolas em tempo integral, fortalecer iniciativas comunitárias e investir em comunicação voltada para mudanças de comportamento.
Embora o Brasil tenha apresentado avanços na segurança alimentar, é vital continuar o trabalho para reduzir o consumo de ultraprocessados e melhorar a saúde infantil. A implementação de um conjunto abrangente de políticas públicas será essencial para garantir um futuro mais saudável para as próximas gerações.
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