A toponímia urbana é um campo de disputas que reflete as transformações políticas e sociais, sendo um importante vetor de memória e identidade cultural. O nome das ruas não apenas identifica lugares, mas também revela as narrativas valorizadas por uma sociedade e as que permanecem à margem. Recentemente, surgiu uma proposta de renomeação da Rua Peixoto Gomide, em São Paulo, para Rua Sophia Gomide, apresentada pela vereadora Luna Zarattini (PT) e pela Bancada Feminista (PSOL). A proposta visa reparar uma injustiça histórica, uma vez que Francisco de Assis Peixoto Gomide Júnior, o homenageado atual, é considerado um feminicida e sua filha, Sophia, foi sua vítima.
Essa iniciativa é vista como um avanço na luta contra a violência de gênero, transformando a via em um símbolo de respeito e conscientização sobre a dignidade feminina. No entanto, a proposta gerou controvérsias, principalmente a partir de um argumento de um pesquisador e influenciador, que sugere que o nome da rua se refere ao pai de Francisco, que era uma figura proeminente em sua época, e não ao filho. Esse argumento se baseia na premissa de que a rua já era conhecida por esse nome antes da morte do filho, em 1906, e que a falta do sufixo “Júnior” na denominação atual reforçaria essa ideia.
A controvérsia ganhou repercussão na mídia, com reportagens questionando a proposta e atualizando o verbete da Rua Peixoto Gomide no Arquivo Histórico Municipal para refletir a falta de consenso sobre o verdadeiro homenageado. Contudo, uma análise mais profunda revela que a argumentação contrária não se sustenta. Documentos históricos mostram que o sufixo “Júnior” nunca foi utilizado para referir-se ao político, e ele sempre foi mencionado apenas como “Francisco de Assis Peixoto Gomide”. Além disso, o pai, que faleceu em 1850, não recebeu homenagens significativas e sua figura foi gradualmente esquecida, enquanto o filho estava em destaque na política paulista na década de 1890, época em que a rua foi nomeada.
A prática de nomear ruas em homenagem a figuras vivas era comum na época, e a manutenção de nomes de políticos do Império, como o pai de Peixoto Gomide, era contrária ao espírito republicano que dominava a sociedade na época da renomeação. Portanto, a evidência histórica sugere fortemente que a Rua Peixoto Gomide realmente homenageia o filho, que estava em ascensão e recebendo diversas honrarias.
A polêmica em torno dessa proposta de renomeação destaca a resistência de setores da sociedade em aceitar mudanças que ressignificam espaços de memória, especialmente quando vinculados a atos de violência. Embora a oposição à mudança careça de fundamentação sólida, é vital continuar iniciativas que buscam reavaliar a memória pública, considerando que várias ruas ainda prestam homenagem a figuras problemáticas sob a luz contemporânea. A situação reforça a importância de questionar e reexaminar a toponímia urbana, promovendo uma cidade que reverencie valores mais justos e inclusivos.
Fonte: Link original































