A Lituânia é um território que revela suas camadas de história de forma lenta, onde a geografia suave, moldada por processos glaciais, reflete uma identidade complexa. Para muitos brasileiros, a região dos países bálticos, incluindo a Lituânia, é frequentemente confundida com a Letônia e a Estônia. No entanto, ao explorar suas cidades, como Vilnius, Kaunas e Trakai, percebe-se que cada uma desenvolve uma identidade única, marcada pela tensão entre permanência e transformação.
Em março de 2026, realizei uma missão acadêmica na Vilnius Gediminas Technical University, viabilizada pelo programa Erasmus+, como parte dos esforços de internacionalização da FAU-USP. Essa experiência visou expandir as relações acadêmicas além do eixo Brasil-Europa Ocidental e resultou em avanços na formalização de acordos de cooperação com instituições lituanas. A troca de ideias com colegas locais, como Šarūnas Petrauskas e Gintaras Stauskis, foi enriquecedora e reforçou a densidade da experiência.
A Lituânia, com suas cidades interligadas, apresenta uma sequência narrativa de espaços. Vilnius, com seu centro histórico barroco, contrasta com a modernidade de Kaunas e a paisagem lacustre de Trakai. Essa dinâmica urbana é vista nas abordagens contemporâneas de arquitetos lituanos, que buscam integrar a arquitetura com a paisagem e a vida pública.
A arquitetura lituana não é apenas uma expressão estética, mas também um documento histórico que revela as diversas influências que moldaram a identidade do país. O neoclassicismo e as intervenções contemporâneas, como o Museu de Arte Moderna de Daniel Libeskind, evidenciam a tensão entre memória e inovação.
A missão também abordou a produção de habitação social, especialmente os conjuntos habitacionais do período soviético. Essas estruturas, que marcam a paisagem urbana, não apenas atendem à demanda habitacional, mas também refletem uma visão específica de organização social. O uso contemporâneo desses espaços, com adaptações e requalificações, revela as tensões entre o projeto original e a apropriação pelos moradores.
Além das questões arquitetônicas, a Lituânia apresenta um contexto geopolítico que influencia sua cultura. A valorização da identidade lituana e o apoio à Ucrânia são visíveis nas bandeiras hasteadas em edifícios públicos. Enquanto templos ortodoxos, construídos durante o domínio soviético, enfrentam um esvaziamento de frequentadores, a arquitetura continua a ser um campo de disputas de significado.
Durante a missão, ministrei uma palestra sobre percepção espacial e como a tecnologia impacta nossa orientação no espaço. A discussão sobre a narrativa visual e a experiência urbana ressoou com a obra de arquitetos lituanos, que buscam criar uma experiência contínua e dramática na cidade.
A visita a projetos culturais, como a Kiemo Galerija e a Lukiškės Prison 2.0, destacou o potencial de reuso adaptativo na arquitetura, mostrando como estruturas carregadas de memória podem ser ressignificadas para novos usos sociais.
Em suma, a missão na Lituânia reafirmou que a internacionalização vai além de acordos institucionais; trata-se de uma mudança de perspectiva que enriquece nossa compreensão cultural e arquitetônica, permitindo um olhar mais aprofundado sobre as complexas geografias que definem o presente.
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