O dia 1º de abril de 2024 marca os 62 anos do golpe civil-militar que instaurou um regime autoritário no Brasil, que durou até 1985. Esse período deixou um legado de trauma e violações de direitos humanos, o que gerou esforços para a preservação da memória histórica e a prevenção de novos regimes antidemocráticos. Um dos principais espaços dedicados a essa memória é o Memorial da Resistência de São Paulo, fundado em 2009, fruto da mobilização do Fórum Permanente de ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo.
Localizado no antigo prédio do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), que foi um centro de repressão de 1940 a 1983, o Memorial celebra 15 anos de atividades, promovendo a defesa dos direitos humanos e a recuperação da memória. A diretora do espaço, Ana Pato, destaca que o Memorial se insere nas práticas de justiça de transição, que incluem a apuração de violações por meio da Comissão Nacional da Verdade (CNV), indenizações a vítimas e reformas em órgãos públicos. O objetivo é preservar a memória histórica e modificar normas para evitar a repetição de abusos autoritários.
O Memorial abriga uma exposição permanente que retrata o cotidiano das prisões e o período pós-ditadura. Recentemente, destaca a exposição “Uma Vertigem Visionária – Brasil: Nunca Mais”, que comemora os 40 anos do livro que documentou a tortura no Brasil, resultado de uma pesquisa clandestina realizada por advogados de presos políticos. O espaço preserva a estrutura original do antigo complexo carcerário, incluindo celas e um corredor, e promove atividades interativas, como rodas de conversa com ex-presos, permitindo que novas gerações vivenciem a história.
Embora o Memorial da Resistência esteja consolidado, outros locais emblemáticos, como o antigo Doi-Codi, ainda aguardam a transformação em espaços de memória. O jornalista Ivan Seixas, que foi preso e torturado no Doi-Codi aos 16 anos, descreve o local como “a Auschwitz brasileira”, onde inúmeras pessoas foram torturadas e assassinadas. Ivan e seu pai foram capturados juntos, e seu pai foi morto nas dependências do destacamento. Ele enfatiza a importância de conhecer esses locais para evitar a repetição das atrocidades cometidas durante a ditadura.
O prédio do Doi-Codi foi tombado em 2014, mas a sua conversão em memorial está paralisada há mais de uma década, permanecendo sob a administração da Secretaria de Segurança Pública, sem estrutura para visitas. Ivan Seixas tem solicitado a transferência do local para a Secretaria de Cultura, para que se torne um memorial dedicado à memória das vítimas da repressão.
Além disso, um levantamento realizado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania em 2025 identificou 49 locais relacionados à ditadura militar no Brasil. O estudo mapeia 17 pontos em São Paulo, 12 no Rio de Janeiro, e outros em diversos estados, com o objetivo de preservar a memória do período de 1964 a 1985. A pesquisa utilizou documentos de comissões da verdade e depoimentos de ex-presos para confirmar a importância desses locais.
Por fim, a reportagem questionou o governo de São Paulo sobre planos para a transferência do Doi-Codi para a Secretaria de Cultura, mas não obteve resposta. A busca por memoriais em outros estados e a continuidade da luta pela preservação da memória da ditadura é fundamental para garantir que as lições do passado não sejam esquecidas.
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