Na semana em que se comemora o 62º aniversário do golpe militar no Brasil, o documentário “Cheiro de Diesel”, dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins, é lançado, trazendo à tona discussões sobre a militarização e suas consequências nas favelas. O filme, que também celebra os 12 anos da ocupação das Forças Armadas no Complexo da Maré, revela como as marcas da ditadura ainda permeiam a democracia brasileira, especialmente nas periferias. Martins, que cresceu na Maré, compartilha sua vivência da violência estatal e destaca que os moradores de favelas não são inimigos, mas parte da solução para os problemas sociais.
“Cheiro de Diesel” já recebeu reconhecimento da crítica, incluindo prêmios no Festival do Rio, por sua abordagem sobre os traumas deixados pela ocupação militar nas favelas do Rio de Janeiro entre 2014 e 2018. Neri enfatiza a necessidade de não apenas denunciar as violências, mas também de oferecer uma experiência sensorial ao espectador, transportando-o para a realidade da militarização.
O encontro entre Neri e Martins, que já atuavam em campanhas contra as operações policiais e a militarização, resultou na criação do filme. Ambas trazem experiências pessoais que as conectam à luta contra a violência do Estado. Martins recorda como a presença do Exército em sua favela durante a Copa do Mundo afetou sua vida e a de seus vizinhos, enquanto Neri, como professora, testemunhou os impactos diretos da operação militar na juventude da Maré.
O título do documentário, “Cheiro de Diesel”, é simbólico e evoca a sensação de opressão e violência que permeou os dias da ocupação militar. A decisão de lançar o filme na data do golpe militar não é acidental; é uma tentativa de manter viva a memória das violações dos direitos humanos e exigir justiça e reparação para as vítimas da militarização.
As diretoras refletem sobre as mudanças na legislação que favoreceram a impunidade das Forças Armadas, como a Lei 13.491, que transferiu a responsabilidade de julgar crimes cometidos por militares para a justiça militar, limitando a possibilidade de reparação e justiça para as vítimas. Elas argumentam que a justiça militar não é o foro adequado para esses casos, pois os próprios militares investigam e julgam suas ações, o que frequentemente resulta em prisões arbitrárias e condenações ilegais.
Além de buscar visibilidade para essas questões, o filme também propõe um debate mais amplo sobre a liberdade de expressão, a reparação territorial e a necessidade de reconhecer as favelas como parte integrante da sociedade, em vez de tratá-las como inimigas. Martins enfatiza que a luta por reparação deve incluir não só as vítimas diretas, mas também as comunidades que enfrentam diariamente a violência do Estado.
“Cheiro de Diesel” é, portanto, uma obra que busca não apenas documentar um período de opressão, mas também estimular a reflexão sobre as injustiças que persistem na sociedade brasileira contemporânea, reafirmando a importância de lembrar e lutar para que a história não se repita.
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