Indígenas Desmontam Acampamento em Santarém Após Revogação de Decreto de Hidrovias
Na manhã desta quarta-feira (25), indígenas da região do Tapajós, no oeste do Pará, desmontaram suas barracas e deixaram a sede da Cargill, em Santarém, após mais de um mês de protestos. A mobilização teve início em 22 de janeiro, quando os povos indígenas ocuparam o terminal portuário da empresa em oposição ao plano de hidrovias do governo Lula, que previa intervenções em importantes rios da Amazônia.
O movimento ganhou força na última semana, culminando em uma invasão da área interna da Cargill, onde manifestantes colocaram cartazes e expressaram suas reivindicações. A pressão foi suficiente para que o governo anunciase, na segunda-feira (23), a revogação do decreto 12.600/2025, que estava sob forte crítica. A publicação da revogação no Diário Oficial da União na terça-feira (24) foi o sinal para o desmonte do acampamento.
Os indígenas se mobilizaram contra um projeto que incluía hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, parte do Programa Nacional de Desestatização (PND). Durante o período de protesto, o número de participantes chegou a 1.200, conforme relato de organizações locais.
Antes da revogação do decreto, o governo defendia que as hidrovias eram uma forma sustentável de transporte, com menores emissões de carbono. No entanto, os indígenas questionaram a falta de consulta prévia, como determina a legislação brasileira.
A Cargill, em nota, caracterizou os atos como "ações violentas" e informou que os protestos resultaram em danos ao seu escritório em São Paulo e na interrupção total das operações no terminal em Santarém. A empresa não especificou os danos ocorridos em sua sede no Pará.
Alessandra Korap Munduruku, líder indígena, enfatizou que as manifestações começaram após a publicação do decreto, em agosto de 2025. Ela destacou a urgência das ações, temendo que os leilões de hidrovias e ferrovias, como a Ferrogrão, ocorressem sem a devida consulta aos povos originários.
A pressão dos indígenas se intensificou, levando a protestos durante a COP30, conferência do clima das Nações Unidas, em Belém, onde bloquearam o acesso ao espaço diplomático do evento. Alessandra ressaltou que, apesar da demarcação de territórios, os povos indígenas continuam enfrentando riscos devido a projetos que ignoram suas vozes.
Em fevereiro, o governo já havia suspendido uma licitação relacionada à dragagem do rio Tapajós, após as mobilizações. Documentos de órgãos ambientais apontam os potenciais impactos negativos da dragagem, incluindo a alteração da qualidade da água e riscos à segurança alimentar das comunidades locais.
Atualmente, a avaliação do Palácio do Planalto indica que o presidente Lula não pretende retomar o debate sobre concessões de hidrovias na Amazônia, em um momento de crescente tensão e a proximidade das eleições. A situação revela a complexidade das relações entre o governo, a indústria do agronegócio e as comunidades indígenas, que continuam lutando por seus direitos e por uma consulta justa em projetos que impactam seus territórios.
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