A Polêmica do Uso do Artigo "O" em Recife: Tradição ou Modernidade?
A discussão sobre a forma correta de se referir à capital pernambucana, Recife, voltou a ganhar destaque entre os moradores e amantes da língua portuguesa. Neste embate linguístico, a dúvida gira em torno do uso do artigo definido “o” antes do nome da cidade.
No filme "O Agente Secreto", do aclamado diretor Kleber Mendonça Filho, os personagens forasteiros se referem à cidade como “em Recife” e “de Recife”. No entanto, o roteiro do filme utiliza predominantemente “o Recife”, “no Recife” e “do Recife”. Essa diferença reflete uma mudança no uso da língua que vem se consolidando ao longo dos anos, especialmente entre os próprios recifenses.
Historicamente, a forma correta de se referir à cidade era com o artigo definido, como nos ensinou o renomado sociólogo e escritor Gilberto Freyre. Ele enfatizava que, por ser um topônimo originado de um acidente geográfico — os arrecifes — o correto seria sempre usar “o Recife”. A tradição linguística preconiza que todos os lugares que derivam de características naturais devem ser precedidos pelo artigo.
Contudo, atualmente, muitos recifenses utilizam a forma sem o artigo, como “em Recife” ou “de Recife”, sem se preocupar com as regras gramaticais. Essa mudança gera reações diversas, com alguns defensores da tradição argumentando que tal prática é um erro. Francisco José, um conterrâneo de Freyre, lembra de uma advertência que recebeu do mestre: “Você está cometendo um erro grave de português nas suas reportagens quando fala de Recife, em Recife”.
A literatura e a música pernambucanas também seguem a tradição. Poetas como Manuel Bandeira e músicos do movimento Mangue Beat, como Chico Science, sempre se referem à cidade de forma tradicional. No entanto, a nova geração parece estar mais à vontade com a modernidade da língua, refletindo uma mudança cultural em curso.
O gramático Napoleão Mendes de Almeida defendia que o uso do artigo poderia ser opcional, mas entre os puristas pernambucanos, a regra é considerada sagrada. A tensão entre tradição e modernidade se mantém, e a comunidade linguística continua a debater essa questão.
Os apresentadores do Oscar, ao se referirem ao filme "O Agente Secreto", devem ter cuidado para não cometer esse deslize. Afinal, a história e a cultura do Recife são pautadas por suas tradições, e a cidade não perdoaria uma abordagem desleixada.
Em meio a risos e debates, a vida segue em Recife, onde a língua, assim como a cidade, está em constante evolução.
Fonte: Link original


































