O tráfico de africanos escravizados foi uma prática prevalente até o século 19, quando começou a declinar devido a uma série de fatores, com destaque para a mudança na postura da Grã-Bretanha em relação ao comércio de escravos. Segundo o professor Marquese, a Grã-Bretanha, que se beneficiou enormemente do tráfico, passou a combatê-lo em um momento em que se consolidava como uma potência marítima após as Guerras Napoleônicas. Essa mudança de atitude foi justificada pela Grã-Bretanha como uma necessidade humanitária, embora também estivesse ligada aos seus interesses de fortalecimento naval.
Marquese enfatiza que a Grã-Bretanha via o tráfico de escravos como um obstáculo ao seu crescimento como potência marítima. Portanto, o combate ao tráfico não era apenas uma questão moral; representava também uma estratégia de projeção de poder imperial. A Grã-Bretanha se confrontou com operadores do tráfico que não se submetiam a estados nacionais ou a ordens políticas, o que complicava a regulação e a fiscalização do comércio de escravos. Assim, a ação britânica contra o tráfico transatlântico foi uma maneira de afirmar seu domínio sobre mares e comércio, além de refletir uma preocupação com crimes contra a humanidade.
Entretanto, é crucial distinguir entre o combate ao tráfico negreiro e a abolição da escravidão. Marquese destaca que a Grã-Bretanha não estava verdadeiramente preocupada com a escravidão em si, uma vez que, durante a Guerra Civil Norte-Americana, quase reconheceu a independência dos estados do sul, que defendiam a continuidade da escravidão. Portanto, o foco britânico estava principalmente no tráfico de escravos, e não em uma reforma mais ampla da escravidão.
A complexidade desse tema revela a intersecção entre interesses econômicos, questões de poder imperial e a moralidade em torno da escravidão. A Grã-Bretanha, ao combater o tráfico, estava também tentando solidificar sua posição no cenário global, enquanto a questão da escravidão permanecia em um segundo plano em suas prioridades políticas. Essa dinâmica ilustra como a moralidade pode ser utilizada como uma ferramenta para justificar ações que, na essência, são motivadas por interesses estratégicos e econômicos.
Assim, o fim do tráfico de africanos escravizados no século 19 não foi simplesmente uma vitória da ética sobre a exploração, mas sim um reflexo das mudanças nas relações de poder e da ascensão da Grã-Bretanha como uma potência global. O papel da Grã-Bretanha nesse contexto é um exemplo claro de como as questões de moralidade e interesse nacional podem se entrelaçar, moldando a história de maneiras complexas e multifacetadas.
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