Qingming: Tradição milenar de homenagens aos mortos na China

Bombeiros limpam o túmulo do soldado chinês Qiu Shaoyun durante o Qingming, no cemitério dos mártires dos Voluntários do Povo Chinês em Shenyang, na província de Liaoning, no nordeste da China, em 5 de abril de 2023

O Qingming é uma das festividades mais relevantes do calendário chinês, celebrado anualmente no início de abril. Nesse dia, os chineses visitam os túmulos de seus antepassados e realizam cerimônias em homenagem a mártires revolucionários. Diferentemente do Dia de Finados, o Qingming não está ligado a uma tradição religiosa específica e não envolve rituais litúrgicos formais. Segundo o historiador Fan Yongpeng, vice-presidente do Instituto da China da Universidade de Fudan, essa celebração possui origens no calendário agrícola, sendo um dos 24 termos solares que organizam os ciclos de plantio e colheita conforme os movimentos solares. O nome “Qingming” significa “Claro e Brilhante”, refletindo o clima da época.

A concepção tradicional chinesa sobre a morte difere do pensamento ocidental. Fan explica que, ao contrário do cristianismo, que implica uma relação contratual com Deus, o pensamento chinês não estabelece essa conexão. Não existem instituições religiosas formalmente organizadas, como igrejas ou sacerdócios; em vez disso, surgiram letrados que interpretam a vontade do Céu. Com o tempo, a noção de que o povo representa essa vontade se consolidou. A percepção sobre a morte evoluiu e, embora tradições como o budismo e o taoísmo apresentem diversas visões, muitos chineses não realizam os rituais do Qingming acreditando em um reino separado para os mortos. A relação com os ancestrais é mais uma prática cultural do que uma crença religiosa. Fan enfatiza que as oferendas feitas durante o Qingming, como queima de papel e alimentos, são expressões de respeito e reverência, não necessariamente uma crença na recepção dos mortos.

O Qingming também homenageia os mártires que sacrificaram suas vidas em guerras e revoluções. Esse aspecto ganhou destaque nas últimas décadas, particularmente após um evento em 1937, quando o Partido Comunista Chinês e o Kuomintang realizaram uma cerimônia em memória dos mortos. Mao Tsé-Tung, ao publicar o ensaio “Servir ao Povo”, estabeleceu que qualquer um que tivesse servido à população merecia reconhecimento. Essa lógica orienta as homenagens aos mártires no Qingming, além de três datas nacionais que celebram a memória de eventos significativos da história da China: o Dia da Vitória, o Dia dos Mártires e o Dia Nacional em Memória das Vítimas do Massacre de Nanjing.

A memória dos mortos, conforme abordado por Fan, desempenha um papel político importante, estabelecendo um vínculo com o passado e um sentimento de pertencimento coletivo no presente, elementos essenciais da identidade nacional moderna da China. Ele descreve isso como uma “comunidade que atravessa o tempo”. Essa continuidade histórica e resiliência é vista como uma fonte de força, que pode servir de exemplo para outras nações, especialmente aquelas no Sul Global, que enfrentam desigualdades e desafios variados. O Qingming, portanto, não é apenas uma celebração de memória, mas também um ato de afirmação nacional e uma reflexão sobre a história e a identidade coletiva.

Fonte: Link original

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