Crise na Saúde Mental dos Policiais Penais em São Paulo: Um Apelo Ignorado
No dia 15 de novembro de 2025, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, fez uma homenagem à sua esposa em suas redes sociais. Entre os diversos comentários, um se destacou pela gravidade da situação: o policial penal Luiz Henrique Ribeiro, em profunda depressão, clamou por ajuda. Pai de três filhos, incluindo um menino de apenas sete anos, Luiz Henrique relatou seu sofrimento e o desespero por um tratamento que poderia salvar sua vida. “Ajuda por amor de Deus. Estou numa depressão profunda, mal saio do quarto”, escreveu, sem receber qualquer resposta.
Infelizmente, essa mensagem de desespero não teve eco nas autoridades. Menos de três meses depois, em 9 de fevereiro de 2026, Luiz Henrique Ribeiro morreu após uma tentativa de suicídio. Ele estava afastado da Penitenciária de Marília, lutando contra doenças que o mantinham acordado por noites a fio. O tratamento que tanto precisava não chegou. O Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (IAMSPE) estava em colapso, incapaz de oferecer o suporte necessário.
Um Problema Alarmante e Generalizado
O caso de Luiz Henrique não é isolado. De acordo com o Boletim do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) de 2025, foram registradas 112 mortes autoprovocadas de policiais penais ativos entre 2020 e 2024 em todo o Brasil, sendo 30 apenas em São Paulo. Em um período em que outras instituições de segurança pública reportaram queda nos índices de suicídio, a Polícia Penal se destacou pelo aumento alarmante.
O Sindicato dos Policiais Penais de São Paulo (Sinppenal) revelou que, em 2025, pelo menos cinco policiais penais se suicidaram, sendo a morte de Ribeiro o primeiro caso confirmado em 2026. Fábio Jabá, presidente do sindicato, ressalta que “depressão, ansiedade e outros problemas psiquiátricos são comuns no sistema prisional”. Ele aponta que as condições insalubres e o estresse constante contribuem para o adoecimento desses profissionais.
A Fragilidade da Assistência à Saúde Mental
Os servidores que buscam ajuda no IAMSPE enfrentam longas filas e demoras, sem conseguir o suporte psicológico adequado. Estima-se que cerca de 10% do efetivo total da Polícia Penal esteja afastado, sendo metade desses casos relacionados a problemas de saúde mental. Policiais que deveriam estar em atividade estão em casa, lutando contra condições que o sistema não consegue tratar.
A situação se torna ainda mais grave quando se considera que a profissão de policial penal é uma das mais perigosas do mundo. Um estudo do Instituto de Psicologia da USP, realizado em 2010, já apontava que a expectativa de vida desses profissionais é de apenas 45 anos, quase três décadas abaixo da média nacional. Essa realidade, marcada por infraestrutura precária e jornadas exaustivas, só se agravou nos últimos anos.
Necessidade de Medidas Urgentes
A falta de servidores é um problema crônico, e a ausência de contratações e a suspensão de concursos agravam ainda mais a situação. Com 23.500 policiais penais ativos, o número ideal, segundo a recomendação da ONU, seria de pelo menos 44.900, garantindo um policial para cada cinco detentos. Atualmente, a proporção é de quase um policial penal para cada dez presos.
Fábio Jabá enfatiza a urgência de implementar um programa de atenção à saúde mental dos policiais penais. “Não é um luxo, mas uma questão de sobrevivência”, afirma. Enquanto isso, o governo permanece em silêncio, ignorando os apelos de profissionais que clamam por ajuda.
Posicionamento do Governo
A Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) se manifestou, expressando solidariedade aos familiares de Luiz Henrique e afirmando que tentativas de contato com o servidor não foram respondidas. A secretaria listou serviços de saúde mental disponíveis e ressaltou que o IAMSPE é responsável pela saúde mental dos servidores.
Contudo, a falta de resposta a apelos como o de Luiz Henrique e a ausência de um programa estruturado para cuidar da saúde mental dos policiais penais evidenciam uma falha do Estado. Cada suicídio representa uma tragédia que poderia ser evitada, e a pergunta que persiste é: quantas vidas ainda serão perdidas antes que ações efetivas sejam tomadas?
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