A transferência dos desfiles das escolas de samba e dos blocos caricatos de Belo Horizonte para depois do Carnaval gerou uma intensa crise entre as agremiações. A mudança, aprovada em uma reunião da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur) em agosto, foi decidida por 13 votos a 9, mas não contou com a participação de todos os grupos interessados. Essa decisão estabelece que os desfiles de 2027 ocorrerão entre 12 e 14 de fevereiro, coincidentemente durante a Quaresma, o que gerou descontentamento, especialmente entre o Leão da Lagoinha, um dos blocos mais tradicionais da cidade.
Jairo Nascimento Moreira, presidente do Leão da Lagoinha, expressou a insatisfação do bloco, afirmando que a decisão pode afastar o público e prejudicar os comerciantes locais, que dependem do fluxo de pessoas durante o Carnaval. Com uma história que remonta a 1947, o bloco é considerado o primeiro de BH e tradicionalmente abre os desfiles oficiais. A preocupação com a religiosidade dos integrantes, que em sua maioria são católicos, também foi levantada, questionando a compatibilidade de realizar uma festa associada à carne na Quaresma.
Além do Leão da Lagoinha, outros grupos, incluindo a Liga Independente das Escolas de Samba de Minas Gerais (LIES-MG), também manifestaram sua oposição à mudança. Eles alegam que a votação não foi transparente, uma vez que muitos representantes não foram convidados e alguns já demonstravam apoio à mudança antes da reunião, sugerindo uma articulação prévia. A falta de um terceiro dia de desfiles, prometido em acordos anteriores, é outro ponto de discórdia, pois muitos blocos acreditavam que isso melhoraria a estrutura e a visibilidade dos desfiles.
Reunindo críticas não apenas pela mudança de datas, mas também por uma suposta falta de compromisso da Belotur em cumprir acordos anteriores, os blocos começaram a coletar assinaturas para um abaixo-assinado e também levaram a questão ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). A petição questiona a transparência da decisão e argumenta que a nova programação poderá causar prejuízos financeiros e enfraquecer a tradição carnavalesca da cidade, que é vista como patrimônio cultural imaterial.
As agremiações se sentem desrespeitadas e marginalizadas, considerando que a cultura do Carnaval em Belo Horizonte é uma parte importante da identidade local. O Leão da Lagoinha já afirmou que, caso a programação permaneça nas novas datas, não participará dos desfiles, destacando a necessidade de respeitar a religiosidade dos integrantes e a tradição carnavalesca. A situação continua tensa, com a expectativa de que a pressão pública e o envolvimento do MPMG possam levar a uma reavaliação da decisão.
Dessa forma, a crise envolvendo o Carnaval de Belo Horizonte reflete um conflito mais amplo sobre a representação, a tradição e a cultura local, questionando como as decisões sobre eventos culturais são tomadas e quem tem voz nesse processo.
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