Paulo Sérgio Pinheiro deixa ONU; investigações da Síria prosseguem

Paulo Sérgio Pinheiro encerra ciclo na ONU, mas investigações sobre Síria continuam – Jornal da USP

Professor Paulo Sérgio Pinheiro encerra 15 anos na presidência da comissão da ONU sobre a Síria

O professor Paulo Sérgio Pinheiro concluiu, em 1º de junho de 2026, seu longo mandato à frente da Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas sobre a República Árabe Síria. Com uma trajetória de 15 anos na presidência, Pinheiro se destacou como uma referência global na defesa dos direitos humanos e é um dos fundadores do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP). Em conversa com o Jornal da USP, ele compartilhou os desafios enfrentados pela comissão ao longo do conflito.

Desafios durante o conflito

Durante a gestão de Bashar al-Assad, a comissão enfrentou severas limitações, sendo barrada de entrar no território sírio. Apesar dessa adversidade, as investigações continuaram por meio da análise de documentos, imagens e depoimentos obtidos remotamente. Muitas das entrevistas foram conduzidas via aplicativos de mensagens, como o WhatsApp. Além disso, a comissão buscou interagir com países aliados do governo sírio, como Rússia e Irã, e manteve comunicação com vários grupos armados envolvidos no conflito.

Pinheiro ressaltou que esse trabalho não foi solitário. Ele contou com o apoio de dois comissionados e uma equipe de aproximadamente 25 funcionários da ONU baseados em Genebra. Ao longo de sua atuação, a comissão produziu diversos relatórios e recomendações à comunidade internacional, documentando crimes de guerra, violações de direitos humanos, desaparecimentos forçados e outros abusos, constituindo um registro histórico das atrocidades cometidas durante a guerra.

O futuro da Síria

Para Pinheiro, a reconstrução da Síria é um dos principais desafios do período pós-guerra. O país viveu sob um regime autoritário por cerca de seis décadas e, desde 2011, enfrentou um conflito armado que se estendeu por mais de 15 anos, envolvendo diferentes facções e a participação de potências estrangeiras. Ele destacou que a longa duração da violência comprometeu seriamente as instituições, a infraestrutura, a economia e a estrutura social da nação.

A transição política teve início em dezembro de 2024, com a queda do governo de Bashar al-Assad, quando uma coalizão de grupos armados conseguiu derrotá-lo. Pinheiro observou que essa mudança foi impulsionada pelo enfraquecimento das Forças Armadas sírias após a perda do apoio militar de seus aliados. Ele enfatizou que a reconstrução do país vai além da mera troca de governo, requerendo a restauração das instituições, o restabelecimento das liberdades fundamentais e a recuperação da confiança da população nas estruturas estatais.

Entre os primeiros sinais de progresso, o professor citou a libertação de presos políticos, o fim da repressão sistemática e a reativação das atividades de organizações da sociedade civil, além do início de diálogos sobre o futuro do país com o apoio da comunidade internacional.

Continuidade do trabalho da comissão

Embora tenha deixado a presidência da comissão, Pinheiro destacou que o trabalho das Nações Unidas permanece em andamento. Ele informou que a comissão continuará a funcionar em Genebra, com a previsão de um novo presidente e a continuidade das investigações sobre violações de direitos humanos. A equipe permanece atenta a recentes episódios de violência, incluindo massacres na costa e no sul da Síria, e mantém diálogo com o governo de transição e agências da ONU. O objetivo é monitorar o processo de reconstrução institucional e a proteção dos direitos humanos durante a complexa transição política que o país enfrenta.

Fonte: Gazeta do Povo
Leia a publicação original: Judicialização transforma pré-campanha e impacta redes sociais
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