Tornozeleiras: Proteção para indígenas em conflito territorial

Tornozeleiras: Proteção para indígenas em conflito territorial

Decisão Judicial Agrava Conflito entre Indígenas e Empresas no Pará

Em um desdobramento alarmante no conflito territorial no nordeste do Pará, a juíza Maria Natalice Oliveira Felipe, do Tribunal de Justiça do Pará, decidiu, no dia 1º de setembro de 2026, por não acatar o pedido de prisão preventiva de quatro lideranças indígenas, acusadas de “extorsão mediante sequestro”. Contudo, a decisão impôs medidas cautelares severas, incluindo a proibição de contato e a obrigação de uso de tornozeleira eletrônica, em um contexto de crescente tensão com a empresa Stive Segurança & Vigilância Ltda.

As lideranças afetadas incluem o cacique Paulo Zywa Hu Pompeu Portilho Turiwara e as cacicas Maria Raimunda Souza Tembé Portilho, Miriam de Souza Portilho e Miriam Maciel Tembé. As medidas exigem que mantenham uma distância mínima de 500 metros de funcionários da Stive e proíbem o porte de armas.

O conflito teve início entre 5 e 8 de fevereiro de 2026, quando vigilantes armados da Stive, a serviço da empresa Sapucaya Agroflorestal, foram flagrados realizando mapeamento aéreo dos territórios I’Ixing e Turiwara com drones. Os indígenas, ao interceptarem os seguranças, os mantiveram em sua aldeia, aguardando a chegada do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal.

Paulo Turiwara relatou que a presença armada da empresa em suas terras gerou um clima de medo e desconfiança. Ele afirmou que os seguranças alegaram estar atuando para a Brasil BioFuels (BBF), uma das principais empresas de produção de óleo de palma, conhecida por seu histórico de violações de direitos humanos.

Críticas e Implicações da Decisão Judicial

A decisão judicial gerou críticas de especialistas e pesquisadores, que destacam a incoerência na inclusão de algumas lideranças no processo. A cacica Yuna Miriam Tembé, que não estava presente no evento que originou as acusações, se manifestou: “É evidente que há uma tentativa de me silenciar e de deslegitimar a luta por nossos direitos”.

A presença de armamento no local foi confirmada por pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que acompanharam a situação. Eles relataram que as armas dos vigilantes foram retidas pelos indígenas, que também encontraram munições de alto calibre em um veículo da equipe de segurança.

Interesses Empresariais em Conflito com Direitos Indígenas

As tensões na região são alimentadas por disputas territoriais envolvendo a BBF e a Sapucaya, que têm tentado expandir suas operações sobre terras tradicionalmente ocupadas por indígenas. As lideranças indígenas afirmam que essas áreas sempre pertenceram a seus ancestrais e que a invasão e a destruição de seus territórios são parte de uma lógica empresarial que ignora seus direitos.

Além disso, há alegações de conivência entre o governo estadual e as empresas, com suspeitas de que o prefeito de Tomé-Açu, Carlos da Vila Nova, tenha vínculos diretos com a Sapucaya. As lideranças afirmam que a pressão sobre os indígenas tende a aumentar após o período eleitoral, gerando um clima de incerteza e medo.

Reação das Lideranças Indígenas

As lideranças indígenas, apesar das ameaças e da repressão, afirmam que continuarão lutando por seus direitos. Yuna Miriam Tembé destacou que, mesmo diante da possibilidade de novas prisões, a resistência não será silenciada: “O nosso direito não é moeda de troca. Somos sujeitos de direitos e dignidade”.

Paulo Turiwara, por sua vez, expressou sua determinação em enfrentar a situação de cabeça erguida, afirmando que a luta é não apenas por eles, mas por um futuro melhor para suas gerações.

Conclusão

O conflito no Vale do Acará é emblemático das tensões entre interesses empresariais e os direitos de comunidades indígenas no Brasil. À medida que as disputas por terra se intensificam, as vozes das lideranças locais se tornam cada vez mais cruciais para a preservação de seus direitos e territórios. A resistência frente à opressão e à violência revela a força e a resiliência das comunidades indígenas na luta por justiça e reconhecimento.

Fonte: Link original

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