O conceito de interseccionalidade, formalizado pela jurista e feminista Kimberlé Crenshaw em 1989, tem se tornado fundamental nas discussões sobre desigualdade e direitos sociais. A interseccionalidade propõe que as opressões não devem ser analisadas isoladamente, mas sim em suas intersecções, considerando como raça, gênero e classe social se combinam para influenciar o acesso a direitos e oportunidades. Essa abordagem é especialmente relevante no contexto da insegurança alimentar, pois revela como diferentes grupos enfrentam essa questão de maneiras diversas.
O 1º Inquérito sobre a Situação Alimentar do Município de São Paulo (2024) ilustra essa realidade. Apesar de ser uma das cidades com maior PIB do Brasil, 50,5% dos domicílios enfrentam algum grau de insegurança alimentar, sendo 12,5% em situação grave, caracterizada pela presença da fome. A pesquisa demonstra que a insegurança alimentar grave é 1,8 vez mais comum em lares chefiados por mulheres do que em lares chefiados por homens, e 1,3 vez mais frequente entre pessoas pretas em comparação a pessoas brancas. Quando se combinam raça e gênero, as disparidades se acentuam, como evidenciado pelos dados que mostram que em lares com mulheres pretas, 17,5% enfrentam insegurança alimentar grave, um índice 2,1 vezes superior ao de lares com homens brancos.
Adicionalmente, estudantes universitários também são um grupo vulnerável à insegurança alimentar. Uma pesquisa realizada entre graduandos de várias regiões do Brasil (Brazuca-Covid) revelou que 38,6% dos domicílios dos estudantes enfrentavam insegurança alimentar. Na Universidade de São Paulo (USP), essa taxa foi de 30%, com 22% apresentando insegurança moderada e 8% grave. Embora esses números sejam altos, são inferiores à média nacional de 55,2% observada durante a pandemia, segundo a 1ª Pesquisa Nacional de Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 (1º Vigisan).
O contexto racial também se destaca entre os estudantes, com aqueles autodeclarados como pardos e pretos apresentando 1,9 e 2,9 vezes mais chances de enfrentar insegurança alimentar em comparação aos estudantes brancos, respectivamente. No entanto, a falta de análises interseccionais que considerem gênero e renda limita a compreensão completa das desigualdades enfrentadas.
Apesar de iniciativas como políticas de cotas, auxílios estudantis e programas de moradia que visam melhorar o acesso e a permanência dos estudantes, muitos recursos ainda são insuficientes para lidar com as condições socioeconômicas adversas que afetam especialmente os alunos de baixa renda, negros e periféricos. A insegurança alimentar entre estudantes universitários está associada a uma alimentação de pior qualidade, maior sofrimento psíquico e impactos negativos no desempenho acadêmico.
Portanto, a perspectiva interseccional é crucial para entender os desafios enfrentados por estudantes em relação ao acesso à alimentação adequada, ao destacar como a interação de múltiplas desigualdades molda suas experiências de insegurança alimentar. Essa abordagem não apenas ilumina as complexidades das desigualdades sociais, mas também aponta para a necessidade de políticas mais abrangentes e integradas que considerem as diversas dimensões da vulnerabilidade.
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