Resultados Atípicos no Provão Paulista Levantam Suspeitas de Irregularidades
Um estudo recente revelou anomalias preocupantes nos resultados do Provão Paulista, um exame destinado a estudantes de escolas públicas que serve como uma das portas de entrada para as universidades estaduais de São Paulo, como USP, Unicamp e Unesp. Criado em 2023 pelo governador Tarcísio de Freitas, o Provão é aplicado ao final de cada ano das três séries do ensino médio.
A pesquisa, que analisa microdados das provas de 2023, 2024 e 2025, identificou pelo menos 4.305 alunos com aumentos de desempenho considerados “extraordinariamente elevados e improváveis”. De acordo com os dados, metade desses casos se concentrou em apenas 50 escolas, enquanto 50% dos resultados atípicos foram registrados em apenas 8 das 91 unidades regionais de ensino do estado.
A Secretaria Estadual de Educação (Seduc) declarou que “resultados estatisticamente atípicos, isoladamente, não podem ser considerados como evidência de fraude” e sustentou que a metodologia do estudo não consegue distinguir entre evolução de aprendizagem e possíveis irregularidades.
O Provão Paulista é composto por 90 questões objetivas de múltipla escolha e, segundo a pesquisa, a mediana de acertos dos estudantes da rede estadual variou entre 23 e 30 questões, inferior à mediana de acertos de alunos de redes municipais e das Etecs, que ficou entre 29 e 46 questões. O estudo aponta que, se os alunos tivessem chutado todas as respostas, a média de acertos seria de apenas 18 questões.
Os pesquisadores consideraram uma variação de pontuação como atípica quando ultrapassou três desvios-padrão, o que representa uma diferença de cerca de 20 pontos em um exame de 90 questões. Exemplos de desempenho anômalo incluem alunos que acertaram 25 questões em 2023 e obtiveram mais de 60 em 2024 e 2025.
A análise também revelou que o aumento de desempenho foi significativamente mais comum entre estudantes da rede estadual do que nas Etecs. Dentre os mais de 30 mil alunos que participaram do exame em escolas técnicas, apenas 53 apresentaram resultados atípicos, o que representa 0,17%. Em contraste, entre os quase 225 mil alunos da rede pública, 4.305 tiveram resultados fora do padrão, totalizando cerca de 1,91%.
Leonardo Crochik, professor do Instituto Federal de São Paulo e um dos responsáveis pelo estudo, enfatiza que a quantidade de resultados atípicos é alarmante. “O que surpreende é a proporção muito maior do que a esperada, mais de 12 vezes acima do normal, concentrada em poucas escolas”, afirmou.
Os pesquisadores identificaram nove escolas onde mais de 75% dos alunos do 3º ano apresentaram resultados anômalos em 2025. Um exemplo é uma escola onde 45 dos 46 estudantes que fizeram a prova tiveram saltos de desempenho acima de três desvios-padrão.
O objetivo do estudo não é acusar estudantes ou instituições de fraude, mas sim indicar que falhas na aplicação e elaboração do exame podem ter permitido que resultados anômalos se disseminassem. Desde a primeira edição do Provão, foram registradas denúncias de vazamentos de provas e uso de celulares durante a aplicação. Em 2023, o tema da redação foi amplamente divulgado nas redes sociais antes da prova, e a Seduc admitiu o vazamento, mas não anulou o exame.
Os pesquisadores criticam a falta de clareza nas finalidades do Provão, que é usado tanto para avaliação de alunos quanto para bonificações e punições de docentes e diretores. A Seduc não respondeu sobre o conflito de interesses inerente a essas múltiplas funções atribuídas ao exame.
Em relação aos resultados, a Seduc afirmou que os dados do estudo não sustentam a conclusão de fraude e que a associação de resultados atípicos à fraude é uma correlação arriscada. A secretaria também mencionou uma análise complementar que encontrou evolução significativa em matemática em 34 das escolas com resultados anômalos.
As universidades, como Unesp e Unicamp, ressaltaram que a responsabilidade pela aplicação do Provão é da Seduc e da Fundação Vunesp, enquanto a USP não se pronunciou. A Unicamp afirmou que espera rigor nos processos seletivos, assim como ocorre em exames sob seu controle.
O debate sobre a integridade do Provão Paulista continua, e as autoridades educacionais devem considerar a necessidade de aprimorar a supervisão e a segurança do exame para garantir a justiça e a transparência no processo seletivo.
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