Documentos da Ditadura são transferidos para Arquivo do RJ

Retirada de documentos foi possível após trabalho de uma equipe de voluntários por dois anos

Na semana em que se completam 62 anos do Golpe Militar no Brasil, cerca de 300 caixas de documentos foram retiradas do antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no Rio de Janeiro. Essa ação ocorreu no dia 30 de outubro e foi realizada com o apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A iniciativa é resultado de uma articulação entre coletivos da sociedade civil, o Ministério Público Federal (MPF) e o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, para onde os documentos foram enviados.

Lucas Pedrotti, integrante do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça, Reparação e Democracia, explicou que o acervo contém informações relevantes sobre a estrutura da polícia, incluindo fichas de agentes e a movimentação de pessoal. Esses dados são fundamentais para entender a dinâmica da censura e a inter-relação entre a polícia política e a polícia comum, desmistificando a ideia de que o DOPS era um órgão isolado. Segundo Pedrotti, a violência perpetrada contra opositores do regime militar estava interligada à violência nas favelas e periferias, com um forte viés racial.

Outro aspecto importante dos arquivos diz respeito ao funcionamento do Serviço de Censura de Diversões Públicas, que continha registros de autorizações e proibições de eventos culturais na cidade. Essa documentação revela que a censura não se restringia apenas a artistas renomados, mas também se estendia a pequenos eventos, como blocos de bairro, que precisavam de autorização do DOPS para ocorrer. Assim, esse acervo é vital para iluminar as nuances do cotidiano da censura durante a ditadura.

A pressão por abertura de arquivos relativos à repressão remonta aos anos 1980, após o fim da ditadura. Durante os anos 1990, muitos documentos foram transferidos para o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, mas muitos outros permaneceram. Pedrotti aponta que, na época, a definição de arquivos de repressão era limitada, focando principalmente nos opositores políticos.

Com a criação da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro entre 2013 e 2014, foram feitas visitas ao prédio do DOPS que revelaram a existência de muitos documentos intocados. Durante essas visitas, foram encontradas salas repletas de documentos em condições precárias, mas a Comissão não conseguiu resgatá-los na ocasião. Em 2023, uma nova visita ao local, em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e movimentos sociais, levou à instauração de um inquérito pelo MPF.

No início de 2024, foi estabelecida uma mesa de negociação entre movimentos sociais e a Polícia Civil, mediada pelo procurador José Júlio Araújo do MPF. Como resultado, formou-se um grupo de trabalho encarregado da triagem e pré-higienização dos documentos. Sob a orientação de técnicos do Arquivo Público do Estado e do Iphan, voluntários de organizações da sociedade civil, além de estudantes de arquivologia e história, colaboraram nesse esforço até o começo de 2026.

Essa recuperação de documentos não apenas contribuirá para a história da repressão no Brasil, mas também permitirá um entendimento mais profundo da cultura e da luta por direitos durante a ditadura, oferecendo um importante legado para as futuras gerações.

Fonte: Link original

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