Influenciadores e a Nova Era de Fiscalização nas Plataformas

Legisladores TikTokers e as novas dinâmicas de fiscalização e visibilidade na era das plataformas – Jornal da USP

Vereadores Digitais: A Nova Face da Política Municipal no Brasil

Nos últimos anos, uma nova tendência tem se consolidado nas câmaras municipais do Brasil: a presença ativa de vereadores nas redes sociais. Após discursarem na tribuna, muitos deles rapidamente recorrem a seus celulares para compartilhar seus pronunciamentos em vídeos, muitas vezes já editados e com trilhas sonoras, antes mesmo do fim das sessões. Essa prática não apenas reflete a modernização da comunicação política, mas também sinaliza uma transformação nos hábitos de informação da sociedade.

De acordo com dados do Digital News Report 2026, publicado pelo Reuters Institute, as redes sociais superaram a televisão e os sites de notícias como as principais fontes de informação globalmente. No Brasil, mais da metade da população utiliza essas plataformas digitais semanalmente, com o Instagram e o TikTok em destaque, especialmente entre os jovens. Essa mudança tem implicações significativas na forma como os cidadãos se relacionam com o poder público e o jornalismo.

A queda na confiança em veículos tradicionais de comunicação, que atingiu seu nível mais baixo desde 2015, com apenas 37% de aprovação global, abre espaço para que vereadores se tornem protagonistas de suas próprias narrativas. Isso levanta questões sobre o papel da fiscalização e do controle democrático, uma vez que muitos legisladores estão utilizando as redes sociais para informar e engajar a população, mas também para construir suas imagens pessoais.

A Redes sociais como Instrumento de Fiscalização

A utilização das redes sociais por vereadores pode ser vista como uma estratégia para ampliar o alcance de suas funções de fiscalização. Um vereador que denuncia irregularidades em contratos públicos ou questiona obras inacabadas em suas plataformas digitais pode exercer um papel mais eficaz na supervisão do poder executivo. A transmissão de uma sessão ordinária pela TV Câmara, com seu alcance limitado, não se compara ao potencial de um vídeo que pode alcançar milhares de visualizações em questão de horas.

Estudos indicam que 27% da população global obtém notícias de criadores de conteúdo focados em informação, e essa porcentagem sobe para 46% quando se incluem aqueles que discutem temas atuais ocasionalmente. No Brasil, onde o número de influenciadores cresce rapidamente, a adoção da linguagem e das estratégias das redes sociais por vereadores se torna uma tática inteligente.

Entretanto, essa mudança também implica um deslocamento na forma como as demandas são tratadas. Muitas vezes, a pressão pública gerada por um vídeo pode preceder o ciclo formal de tramitação de requerimentos e solicitações, o que, embora possa acelerar soluções, também fragiliza os mecanismos tradicionais de controle e pode distorcer o processo legislativo em uma narrativa voltada para as redes sociais.

O Vazio do Jornalismo Local

A ascensão de vereadores "TikTokers" pode ser atribuída à crise do jornalismo local no Brasil. Muitos municípios, especialmente os de pequeno e médio porte, enfrentam uma escassez de veículos de comunicação que cubram adequadamente as ações do executivo e do legislativo. A ausência de uma cobertura jornalística robusta permite que vereadores se tornem, paradoxalmente, a principal fonte de informação política para a população.

O Digital News Report 2026 destaca que, embora o interesse em notícias tradicionais tenha caído, o apelo por conteúdo de criadores e influenciadores está em ascensão. Esse fenômeno revela uma mudança na percepção do público, que vê os criadores como mais acessíveis e identificáveis, mesmo que menos confiáveis. Assim, os vereadores que se adaptam a esse cenário conseguem se conectar melhor com seus eleitores.

A Armadilha da Visibilidade

Entretanto, o mesmo ambiente que permite uma fiscalização mais próxima também pode ser utilizado como uma plataforma de marketing político. A lógica dos algoritmos das redes sociais prioriza o engajamento, que muitas vezes é gerado por emoções e conflitos, em detrimento da prestação de contas. Um vídeo emotivo pode ter mais impacto do que um relatório técnico sobre uma irregularidade, o que pode distorcer a verdadeira função de fiscalização.

Os discursos políticos, conforme analisado por especialistas, devem articular tanto a informação objetiva quanto estratégias de sedução para captar a atenção do público. As redes sociais, no entanto, tendem a favorecer a segunda abordagem, o que pode comprometer a integridade da comunicação política.

Além disso, a natureza dos perfis utilizados por esses vereadores — muitas vezes cadastrados como pessoais — levanta questões sobre a transparência e a ética na comunicação. Esses perfis não estão sujeitos às mesmas exigências de prestação de contas que os canais institucionais, permitindo que o conteúdo produzido seja menos supervisionado, mesmo quando financiado por recursos públicos.

A Necessidade de um Novo Padrão de Comunicação

Diante desse cenário, é fundamental que a presença dos vereadores nas redes sociais não se transforme em uma mera simulação de fiscalização. É necessário estabelecer uma comunicação que se distinga entre ações legítimas e mero marketing político. Vídeos e postagens deveriam incluir dados verificáveis, referências a documentos públicos e links para portais de transparência.

A atividade parlamentar deve ser traduzida em um conteúdo que, embora acessível e adaptado às plataformas digitais, mantenha a substância necessária para o exercício de um mandato responsável. A democracia local não precisa de vereadores influencers, mas sim de representantes que utilizem as ferramentas digitais para cumprir suas obrigações constitucionais de controle e fiscalização.

Em um momento em que o jornalismo local enfrenta desafios sem precedentes, a figura do vereador digital ocupa um espaço vital. Contudo, ocupar um espaço não equivale a cumprir uma função. A verdadeira responsabilidade dos legisladores é garantir que o poder público seja accountable, utilizando as redes sociais como um meio para fortalecer a democracia e não como um espetáculo superficial.

Fonte: Link original

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