Rituais em Alta: Os Últimos Refúgios Sem Algoritmos

Os últimos territórios livres dos algoritmos (Por que os rituais voltaram a importar) – Jornal da USP

Rituais no Século 21: Uma Resposta à Era Algorítmica

Em meio à era da tecnologia e da inteligência artificial, surge uma reflexão intrigante: estaríamos testemunhando o maior processo de ritualização da sociedade desde a Revolução Industrial? Apesar de parecer improvável diante da conectividade e da aceleração atuais, essa hipótese merece atenção. Os algoritmos moldam nosso cotidiano, mas, paradoxalmente, o desejo humano por experiências livres dessas medições cresce.

Vivemos em um mundo onde nossas interações são constantemente monitoradas e otimizadas. Compramos, trabalhamos e até nos relacionamos sob a vigilância de sistemas que preveem e influenciam nosso comportamento. No entanto, esse mesmo ambiente desencadeia uma busca por espaços de desconexão, onde a presença dos algoritmos é ausente.

Os rituais, tradicionalmente associados à religião e cultura, estão se transformando em formas de resistência. O que antes era visto como silêncio ou ausência agora é valorizado como liberdade. Estar inacessível se torna um privilégio, e a capacidade de não responder imediatamente é percebida como um ato de autonomia. Nesse contexto, desaparecer por algumas horas pode se tornar um gesto político.

Pensadores contemporâneos, como o filósofo Byung-Chul Han, alertam para o excesso de positividade e desempenho que permeiam a sociedade atual. Em contrapartida, o sociólogo Hartmut Rosa propõe a ideia de "ressonância", momentos em que reconectamos com o mundo ao nosso redor. Nesse sentido, novos rituais podem ser vistos como mecanismos de ressonância, permitindo que a experiência humana se mantenha no centro.

A busca por desconexão é visível em diversas partes do mundo. Hotéis promovem a ausência de internet como atrativo, retiros de silêncio têm filas de espera e práticas como o Shinrin-yoku, ou banho de floresta, se espalham globalmente. Além disso, a cerimônia do chá e os encontros familiares reforçam a importância de momentos sem a presença de tecnologias.

Esses ambientes que priorizam a experiência humana rejeitam a lógica da otimização. Neles, a eficiência e a produtividade perdem importância, dando lugar à lentidão como método e ao silêncio como forma de comunicação. A presença dos ausentes, como mortos e tradições, é protegida e revalidada em rituais que buscam dar significado à vida.

Em um cenário onde os algoritmos operam com base em dados mensuráveis, surge um conflito silencioso entre o que é produzido pelo ritual e pelo algoritmo. Enquanto o primeiro busca dar sentido à existência, o segundo organiza comportamentos em torno da presença constante.

A tecnologia não substitui os rituais; ao contrário, sua sofisticação torna essas práticas ainda mais necessárias. Os rituais do século 21 não apenas protegem o sagrado, mas também resguardam a atenção humana, o direito ao silêncio e a memória frente à atualização contínua.

A ironia reside no fato de que, enquanto a sociedade acredita estar se afastando dos rituais, na verdade, estamos reinventando formas de conexão humana. Em pequenas zonas autônomas, reaprendemos a experimentar a vida sem a mediação da tecnologia: observar a paisagem sem fotografá-la, caminhar sem registrar cada passo e conversar sem interrupções.

Esse cenário nos leva a uma reflexão final: no século 20, as instituições protegiam os indivíduos da natureza. Agora, no século 21, os rituais precisam proteger as pessoas dos sistemas que criamos. Se a inteligência artificial dominar a experiência humana, o verdadeiro espaço de liberdade pode não ser o tecnológico, mas sim o antropológico.

Palavras-chave: rituais, era algorítmica, desconexão, tecnologia, presença humana, silêncio, resistência, Byung-Chul Han, Hartmut Rosa.

Fonte: Link original

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