A História de Esperança: Crianças Ucranianas e o Programa de Chernobyl no Brasil
No final da década de 1990, uma iniciativa transformadora trouxe esperança e cuidados a crianças ucranianas afetadas pelo desastre nuclear de Chernobyl. Entre elas estava Dasha, uma menina de 9 anos que foi acolhida por Tânia Regina Welgacz em sua casa em Balneário Camboriú, Santa Catarina. "Foi a experiência mais maravilhosa da minha vida. Eu me emociono até hoje", relembra Tânia ao falar sobre o impacto que a presença da criança teve em sua vida.
O programa, idealizado pelo então embaixador do Brasil na Ucrânia, Mário Augusto Santos, e implementado pela Representação Central Ucraniano-Brasileira, trouxe a Curitiba crianças que enfrentavam problemas de saúde em decorrência do acidente de 1986. Durante pouco mais de dois meses, essas crianças receberam atendimento médico especializado na capital paranaense, que abriga a maior comunidade ucraniana do Brasil.
O Início do Programa
Em fevereiro de 1999, cinco crianças desembarcaram em Curitiba, acompanhadas por um profissional de saúde. Ao longo do ano, outros dois grupos seguiram o mesmo caminho, totalizando 15 crianças entre 7 e 12 anos. Dasha foi parte do último grupo a chegar ao Brasil. Inicialmente, ela deveria ficar com outra família, mas devido a um problema de saúde, Tânia decidiu acolhê-la em sua casa. “Foi uma experiência de amor e carinho”, destaca Tânia, que acompanhou Dasha em todas as consultas médicas.
Memórias Que Permanecem
Essa experiência deixou marcas profundas nas famílias que acolheram as crianças. “As famílias se sentiram muito satisfeitas em participar do programa e ficaram impressionadas com a inteligência das crianças”, comenta Mário Augusto Santos. O projeto foi inspirado em uma iniciativa semelhante que ocorreu em Cuba, mas, diferentemente deste, o programa brasileiro foi totalmente financiado pela comunidade ucraniana local.
Desafios e Superações
Apesar do sucesso, o programa enfrentou desafios significativos. Santos recorda como foi difícil convencer os pais na Ucrânia a permitir que seus filhos viessem para o Brasil. Para muitos, o país era apenas uma ideia distante, associada a estereótipos. Já para as famílias acolhedoras, a falta de transparência sobre os tratamentos e as diferenças financeiras geraram dificuldades. “Algumas famílias podiam arcar com as despesas de uma ou mais crianças, enquanto outras não tinham essa capacidade”, explica a historiadora Tatiana Marchette, que escreveu um livro sobre a iniciativa.
A barreira linguística também foi um obstáculo. As crianças falavam um ucraniano influenciado pelo russo, enquanto as famílias preservavam um dialecto mais antigo. No entanto, as memórias dessa experiência ainda emocionam todos os envolvidos. Muitos expressam arrependimento por não manterem contato com as crianças que acolheram, especialmente em um contexto de guerra na Ucrânia.
Um Novo Capítulo
O programa passou por uma reavaliação no final de 1999, com a proposta de trazer médicos ucranianos ao Brasil para treinamento em transplante de medula óssea. No entanto, a morte de uma criança que não conseguiu retornar à Ucrânia após o tratamento em Curitiba levou ao encerramento do projeto. A comunidade se mobilizou para trazer os pais do garoto ao Brasil, mas, ao retornar à Ucrânia, ele não recebeu mais os medicamentos necessários e faleceu pouco depois.
Após o fim do programa de acolhimento infantil, um novo projeto foi lançado, com a chegada de médicos ucranianos para treinamento em Curitiba. Assim como o anterior, essa iniciativa foi financiada pela comunidade ucraniana, que acreditava na necessidade de criar uma estrutura de atendimento em sua terra natal.
Reflexão e Esperança
A história desse programa é um testemunho da solidariedade e do amor que transcende fronteiras. Apesar dos desafios enfrentados, as lembranças e laços criados entre as famílias brasileiras e as crianças ucranianas continuam a inspirar esperança e a lembrar da importância de cuidar do próximo, especialmente em tempos de crise.
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