Indígenas Marcello Kariri e Idjahure Terena Ingressam na Carreira Diplomática Brasileira
Na última quarta-feira (4), um marco histórico foi alcançado no Palácio Itamaraty, em Brasília, com a posse dos indígenas Marcello Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, como novos diplomatas. Esta é a primeira vez que representantes de povos originários ingressam no curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco, vinculado ao Ministério das Relações Exteriores.
Os dois indígenas farão parte da turma que se inicia em 2026 e se formará em 2028. O curso conta com cerca de 60 alunos, sendo que quase metade deles provém de grupos sub-representados na diplomacia brasileira. Entre os novos diplomatas, destacam-se 17 pessoas negras, sete com deficiência, uma quilombola e os dois indígenas. Além disso, esta edição do curso apresenta a maior participação feminina da história, com 45% de mulheres.
O concurso que possibilitou a entrada desses novos estudantes recebeu apoio de ações afirmativas, como as estabelecidas no Estatuto da Igualdade Racial de 2010, um avanço reivindicado por anos por movimentos de direitos humanos.
Durante a cerimônia de posse, a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, ressaltou a importância de um corpo diplomático que reflita a diversidade do Brasil. “Celebrar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas é um ato de resistência em tempos de ameaças à democracia e aos direitos fundamentais”, afirmou. Laura da Rocha também mencionou iniciativas do ministério para promover essa diversidade, como o aumento do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, beneficiando não apenas negros, mas também mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, enfatizou que a posse simboliza a realização do conceito de “Aldear o Estado”, inserindo lideranças indígenas em espaços de decisão. “Indígenas que hoje chegam ao Itamaraty, há poucos séculos, não eram considerados seres humanos. Este é um momento simbólico que representa um ganho para toda a nação brasileira”, declarou Terena.
O evento contou com a presença de Ailton Krenak, intelectual e escritor indígena, que celebrou a inclusão das famílias e crianças indígenas na cerimônia. “É importante que, mesmo diante das adversidades, possamos exercitar a esperança e criar mundos ricos de significado”, ressaltou.
Trajetória dos Novos Diplomatas
Marcello Kariri, natural de Campina Grande (PB), possui uma trajetória acadêmica notável, com graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande e MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Entre 2021 e 2025, atuou como Engenheiro de Suporte a Produtos e é autor de um livro infanto-juvenil. “Havia uma crença na minha comunidade de que pessoas como nós enlouqueceriam se estudassem. Minha mãe viu na educação uma porta para novas oportunidades”, compartilhou durante a cerimônia.
Idjahure Achkar Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e possui mestrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele também é bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela PUC-Rio. “Ingressar no Itamaraty significa reconhecer a história de exclusão e luta por um futuro onde nossa diversidade étnica seja integrada ao Estado”, avaliou Idjahure.
No Brasil, a população indígena é de aproximadamente 1,2 milhão de pessoas, distribuídas em 391 etnias que falam 295 línguas distintas, além de 114 grupos isolados ou de recente contato. A população negra do país, segundo dados de 2022 do IBGE, totaliza 92,1 milhões, dos quais 45,3% são pardos.
A inclusão de Marcello e Idjahure na diplomacia é um passo importante para promover a diversidade e a representatividade no cenário político brasileiro.
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