Romarias na Amazônia: Memória, Luta e Esperança
Entre junho e julho de 2023, diversas romarias têm mobilizado comunidades da Amazônia para celebrar a memória de mártires e denunciar os avanços do agronegócio na região. Essas marchas, organizadas por movimentos sociais e comunidades locais, são uma expressão de fé e resistência, reafirmando o compromisso com a defesa da vida no planeta.
Neste ano, as romarias também marcam os 50 anos do assassinato do padre João Bosco Penido Burnier, um defensor dos direitos humanos que foi morto durante a ditadura militar ao lutar pela libertação de mulheres camponesas torturadas. O reconhecimento oficial do crime como uma violação política só ocorreu em 2010.
A 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, realizada em Ribeirão Cascalheira (MT), local da morte do religioso, destaca a importância de manter viva a memória desses mártires. José Carlos Lima, coordenador da Comissão Pastoral da Terra, ressalta que “a causa da vida é maior do que qualquer individualidade”, enfatizando a necessidade de proteger a Terra, nossa “casa comum”.
Embora a paisagem da violência tenha mudado ao longo das décadas, Lima alerta que a opressão do capital permanece. Entre 2016 e 2025, o Brasil registrou 374 assassinatos e 14 massacres no campo, segundo o relatório “Conflitos no Campo Brasil 2025”. Esse cenário revela uma realidade ainda dura e marcada pela impunidade.
Romarias como Símbolo de Esperança
As romarias são momentos de celebração e resistência, repletas de místicas que remetem à luta pela terra prometida. “Usamos a expressão ‘uma terra sem males’ para descrever o desejo de um lugar livre do agronegócio e das violências que ameaçam a vida das comunidades”, explica Lima.
A 19ª Romaria da Floresta, em Anapu (PA), que homenageia a irmã Dorothy Stang, assassinada em 2005, é um exemplo dessa luta. Com o tema “Dorothy Vive”, os participantes buscam renovar a fé e a resistência, deixando claro que não desistem de suas terras e de seus sonhos.
A programação da romaria inclui uma caminhada até o local onde a missionária foi morta, além de rodas de conversa sobre as ameaças enfrentadas pelas comunidades, que já perderam parte significativa de suas florestas.
Ações e Reflexões
Neste mês, a 11ª Romaria dos Mártires da Floresta, entre Nova Ipixuna e Marabá, também ressaltou a importância da memória coletiva. Durante o evento, familiares de José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva plantaram mudas em homenagem aos que perderam a vida por suas lutas.
As romarias ocorrem em diversas regiões do Brasil ao longo do ano. No Rio Grande do Sul, por exemplo, uma delas é tradicionalmente realizada na terça-feira de Carnaval. Em outubro, uma marcha na Paraíba seguirá do sítio onde viveu o padre José Comblin até o assentamento Elizabeth Teixeira, onde João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas, foi assassinado.
Em Alagoas, a 37ª Romaria da Terra e das Águas abordará o tema “Terra para plantar, casa para morar”, destacando a luta de 5 mil famílias que aguardam há anos por assentamento.
Um Caminho de Luta e Esperança
As romarias são uma expressão viva da luta por justiça social e ambiental. “Cada passo é uma semente que brota, uma memória que resiste”, afirma Lima. Entre cruzes e caminhos, as comunidades seguem firmes em sua busca por vida digna, justiça climática e proteção da Terra.
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