Unesp revela: Pantanal teve 80% das águas perdidas em 38 anos

A Estação Ecológica do Taiamã, no Pantanal, foi afetada pelos incêndios de 2021.

A Crise das Águas no Pantanal: Queda Drástica e Aumento dos Incêndios

Os alarmantes dados sobre o Pantanal, um dos maiores biomas do Brasil, revelam um cenário preocupante. Em 1985, as áreas de água superficial no Pantanal totalizavam 19 mil quilômetros quadrados. Em 2023, esse número despencou para apenas 3,8 mil km², evidenciando uma redução de 80% em quase quatro décadas. Essa drástica diminuição tem contribuído para a intensificação dos incêndios na região.

A pesquisa realizada por especialistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) destaca que, enquanto a área com alta severidade de incêndios era de 400 km² em 1985, em 2023, esse número saltou para 1.129 km². Para se ter uma ideia do impacto, o segundo pior índice da série histórica foi registrado em 2020, com 3.250 km².

Historicamente, as cheias anuais do Pantanal desempenhavam um papel crucial na proteção contra incêndios, mantendo altos níveis de umidade. Com a queda das inundações nas últimas décadas, a vegetação, que antes era coberta por água, agora se encontra seca e vulnerável. "Uma área que era alagada há 10 ou 20 anos, hoje não tem mais água e, consequentemente, não possui vegetação. Isso resultou em um aumento da vegetação herbácea, que é mais suscetível a incêndios", afirma Sérvio Túlio Pereira Justino, um dos autores dos estudos.

Os pesquisadores identificam que diversos fatores, como a diminuição do período de chuvas, baixa umidade relativa, altas temperaturas e ventos fortes, aceleram a propagação do fogo. Além disso, a presença humana tem sido determinante. Em 2020, cerca de 60% dos focos de calor no Pantanal estavam localizados a menos de 5 km de estruturas construídas pelo homem, como estradas e pontes. A substituição de pastagens nativas por espécies exóticas e o uso do fogo para renovação de pastos também contribuem para o aumento da severidade dos incêndios.

Os dados de uso e cobertura da terra revelam que, em 1992, os prados naturais ocupavam 32,3% da área, enquanto florestas e corpos d’água correspondíam a 18,6% e 14,4%, respectivamente. Trinta anos depois, as áreas de corpos d’água, florestas e áreas úmidas caíram 9,9%, 5,7% e 3%. Em contrapartida, as pastagens e pradarias aumentaram consideravelmente.

Os estudos indicam que as frequências de incêndios têm se intensificado, especialmente nas regiões sudoeste e norte do Pantanal, onde a atividade humana é crescente. Embora essas áreas se regenerem rapidamente após incêndios, elas estão sujeitas a queimadas recorrentes, principalmente quando utilizadas no manejo agrícola.

A ação humana é um fator decisivo para a diminuição das águas superficiais, seja pela criação de açudes para o agronegócio ou pela construção de barragens para hidrelétricas. "O Pantanal é uma área de planície, e a construção de um lago artificial pode afetar não apenas sua localização, mas também outras áreas com lagos naturais", explica Justino.

Futuro Incerto para o Pantanal

As conclusões dos estudos levantam a questão: será possível reverter essa situação? Justino alerta que, se o atual ritmo de degradação continuar, o Pantanal pode alcançar um ponto irreversível. "É necessário adotar medidas urgentes, como a redução do desmatamento, conscientização da população e políticas públicas eficazes para combater a expansão humana na região", destaca.

Em resposta a essa crise, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) iniciou, em maio, uma operação no Pantanal para proteger o bioma por meio de ações integradas de prevenção e fiscalização. Em 2026, foram notificadas 574 propriedades rurais situadas em áreas de risco.

A preservação do Pantanal é essencial não apenas para a biodiversidade, mas também para o equilíbrio ecológico da região. A mobilização de esforços para enfrentar essa crise é mais urgente do que nunca.

Fonte: Link original

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