Em meio aos avanços tecnológicos na saúde, a medicina moderna enfrenta o desafio de não só aumentar a longevidade, mas também de assegurar qualidade, conforto e dignidade aos pacientes. Nesse contexto, os cuidados paliativos emergem como uma abordagem humanizada e multidisciplinar, essencial para o bem-estar dos indivíduos com doenças progressivas. A médica Bruna Borges, especialista em Cuidados Paliativos e coordenadora do curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itacoatiara, destaca que o conceito de cuidados paliativos é frequentemente mal interpretado, sendo erroneamente associado ao fim da vida. Segundo ela, esses cuidados não são exclusivamente para pacientes em fase terminal, mas sim para qualquer pessoa com uma enfermidade grave e incurável, como câncer sem tratamento curativo, doenças neurodegenerativas e insuficiências orgânicas severas.
Os cuidados paliativos visam oferecer suporte a pacientes e suas famílias em momentos críticos, priorizando o alívio do sofrimento em suas diversas dimensões: física, emocional, social, espiritual e familiar. Com base em dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 56,8 milhões de pessoas no mundo precisam de cuidados paliativos anualmente, mas apenas uma pequena fração recebe essa assistência. A OMS enfatiza que o acesso a esses cuidados é uma parte fundamental dos sistemas de saúde, especialmente considerando o envelhecimento da população e o aumento de doenças crônicas.
Um dos principais desafios enfrentados na implementação de cuidados paliativos é a desconstrução da ideia de que essa abordagem representa uma desistência do tratamento. Bruna Borges ressalta que essa visão está enraizada em um modelo curativista que prioriza a sobrevivência a qualquer custo, levando a uma associação equivocada entre paliar e desistir. Ela afirma que os cuidados paliativos não se concentram na morte, mas sim em promover uma vida digna e confortável no tempo que resta.
Um conceito central nos cuidados paliativos é o de “dor total”, que reconhece que o sofrimento dos pacientes vai além da dor física, envolvendo também aspectos emocionais, sociais e espirituais. A abordagem busca proporcionar alívio não apenas físico, controlando sintomas como dor, falta de ar e fadiga, mas também psicológico, ajudando pacientes e familiares a lidar com sentimentos como medo e tristeza. A dimensão espiritual é considerada essencial, não apenas em termos de religiosidade, mas na busca por significado e propósito na vida do paciente.
A participação ativa da família é outro aspecto crucial dos cuidados paliativos. Os familiares são vistos como parte integrante da equipe de cuidados, contribuindo para as decisões e oferecendo suporte emocional. Bruna Borges enfatiza que a família deve ser cuidada, pois enfrenta desafios emocionais significativos, como medos e lutos antecipados.
Finalmente, o respeito à autonomia do paciente é um princípio fundamental da abordagem paliativa. Isso implica considerar os desejos, valores e escolhas do paciente em relação ao seu tratamento. Bruna Borges destaca que, ao respeitar a vontade do paciente, ele se torna o protagonista de sua própria história, reafirmando a essência da medicina: cuidar da pessoa como um todo, e não apenas da doença.
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