Angélia Aguilera, de 18 anos, e seu filho de 2 anos vivem em um acampamento improvisado em Pacaraima, Roraima, na fronteira com a Venezuela. Há cerca de um mês, Angélia e sua família, que inclui seu marido, deixaram Maturin, na Venezuela, devido à grave crise econômica e política que afeta o país. A decisão de imigrar para o Brasil foi motivada pela falta de trabalho, comida e remédios na Venezuela, onde a alimentação da família se restringia a mandioca e sardinha, e o marido tinha que abandonar seu emprego em uma multinacional devido à inflação devastadora. No Brasil, Angélia relata que a situação é difícil, mas ainda conseguem sobreviver, com o marido vendendo café nas ruas. Eles sonham em chegar a Manaus em busca de melhores oportunidades.
Pacaraima abriga pelo menos 1,5 mil imigrantes venezuelanos em situação de rua, representando 22% da população local de 15 mil habitantes. A cidade dispõe de um abrigo público, mas é exclusivo para imigrantes indígenas. O governo federal está em processo de instalação de um novo abrigo, destinado a não-índios, com capacidade para 500 pessoas. As condições de vida nos acampamentos são precárias, com famílias vivendo em barracas de camping e estruturas feitas de lona, madeira e papelão, muitas vezes cobertas com plástico para proteção contra a chuva. Durante a noite, as temperaturas podem cair para 16º C, o que torna a situação ainda mais difícil.
Outro venezuelano, Luiz Sereño, de 20 anos, também deixou seu país em busca de melhores condições de vida. Em sua barraca, ele exibe bandeiras do Brasil como um gesto de gratidão pela acolhida que recebeu. Luiz trabalha lavando carros e manda o que pode para sua filha de três anos que ficou na Venezuela. Ele expressa sua frustração com a situação no seu país, onde, apesar de ter muitos recursos naturais, a população sofre com a fome.
A crise migratória é alarmante: só nos primeiros seis meses deste ano, mais de 16 mil venezuelanos pediram refúgio em Roraima, um aumento de 20% em relação ao total de 2017. Entre os 128 mil venezuelanos que entraram no Brasil pela fronteira de Pacaraima nos últimos 18 meses, muitos retornaram à Venezuela, enquanto outros se dispersaram pelo país. O Exército Brasileiro relata uma média de 416 entradas diárias de venezuelanos em Roraima.
A situação nos abrigos é crítica, com cerca de 4,6 mil pessoas acolhidas em dez abrigos públicos, sendo que seis deles foram inaugurados apenas neste ano. Contudo, muitos imigrantes ainda vivem nas ruas em diversos municípios do estado. Além disso, a Força Aérea Brasileira já transportou 820 imigrantes para outras regiões do Brasil como parte de um processo de interiorização, visando distribuir os recém-chegados a diferentes estados e aliviar a pressão sobre Roraima.
Essa realidade retrata o desespero de muitos venezuelanos que, em busca de uma vida digna, enfrentam desafios imensos ao atravessar a fronteira, refletindo as consequências da crise humanitária que assola a Venezuela.
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