Empresas de Tecnologia na Bahia Geram Milhões com Software de Saúde: Investigação Revela Conexões Suspeitas
Uma análise minuciosa das licitações de tecnologia de saúde na Bahia revela que duas empresas, Horizon Inovação e Tecnologia e Absolutec Soluções, faturaram juntas mais de R$ 38 milhões ao longo dos últimos 12 anos. Parte desse montante provém de recursos federais do Sistema Único de Saúde (SUS), levantando questões sobre a transparência e competitividade nas contratações públicas.
Essas empresas competem em editais de 35 municípios baianos, oferecendo o mesmo software chamado MAS+ (Multitok Agentes de Saúde). Este sistema, acessado por tablets, visa facilitar a coleta de dados por agentes de saúde durante visitas domiciliares, permitindo que as informações sejam monitoradas em tempo real pelos gestores municipais e repassadas ao governo federal.
O MAS+ foi originalmente desenvolvido pela Comunicação, Tecnologia e Interatividade Ltda (Comtecno), uma empresa cujo controle acionário passou por mudanças significativas após a morte de um dos sócios fundadores, João Passos, em 2014. A partir desse evento, Carlos Alberto Passos assumiu a direção, mas a divisão de lucros entre a família do falecido e ele gerou disputas judiciais que ainda persistem.
Nesse contexto conturbado, a Horizon, sob a administração de Alessandro Gustavo Passos, filho de Carlos Alberto, começou a participar das licitações, operando o mesmo software que a Comtecno. Curiosamente, ambas as empresas compartilham o mesmo endereço, o que levanta suspeitas sobre um possível conluio.
Em 2014, pai e filho concorreram em uma licitação para a prefeitura de Itaparica, onde a Horizon saiu vencedora. Dois anos depois, um funcionário que trabalhou para ambas buscou o reconhecimento de vínculo empregatício, e o Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região apontou que, apesar da falta de vínculos formais, as empresas operam como um conglomerado econômico.
A partir de 2015, a Absolutec, com Greice Daniela Zago como sócia, começou a emergir como concorrente direta da Horizon, utilizando também o software MAS+. Um contrato de cessão de direitos de uso do MAS+ permite que a Absolutec pague 20% dos valores obtidos com suas contratações, enquanto a Comtecno retém 80%.
Ambas as empresas frequentemente aparecem como as únicas participantes em licitações em municípios como Itatim, Nazaré e Ibotirama. Em uma série de casos, a Absolutec venceu a Horizon em editais, e vice-versa, o que levanta dúvidas sobre a real concorrência entre elas.
Além disso, foram encontradas evidências de que textos e especificações dos editais eram repetidos em várias cidades, indicando um possível direcionamento das licitações. Por exemplo, o mesmo texto justificativo foi utilizado em editais de Itapetinga e Alagoinhas em 2019, e as especificações técnicas foram idênticas em diferentes municípios.
A disparidade nos preços cobrados pela Horizon por cada licença também chama a atenção, com valores variando significativamente de um município para outro. Em Ibirapuã, cada licença custou R$ 180, enquanto em Rio Real, o preço foi de R$ 59,94.
Tentativas de contato com os representantes das empresas para esclarecimentos não tiveram sucesso. O e-mail da Comtecno está fora do ar, e tanto a Absolutec quanto a Horizon não responderam às solicitações de entrevista. Recentemente, a Absolutec anunciou uma mudança de nome e foco, passando a atuar na gestão cultural, o que levanta novas questões sobre o futuro das operações anteriores.
As prefeituras mencionadas na reportagem também foram contatadas, mas não se manifestaram até o momento. A situação demanda uma investigação mais aprofundada para garantir a integridade e a transparência nas contratações públicas na área de saúde da Bahia.
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