As lutas atuais dos movimentos sociais são fortalecidas pela memória das batalhas do passado, que fundamentaram suas organizações na busca por justiça social e emancipação. Um exemplo significativo é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que enfrenta estigmatização e tentativas de apagamento de sua história, apesar de suas conquistas ao longo das décadas. Nesse contexto, é essencial preservar as diversas formas de memória das lutas dos povos.
Em Pernambuco, essa preservação começa a ser realizada por meio do Acervo do Vídeo Popular, um projeto que surgiu com a popularização das tecnologias de vídeo. Desde 2022, um grupo de pesquisadores, composto por profissionais de cinema, comunicação e membros de organizações da sociedade civil, trabalha para resgatar, preservar e difundir memórias audiovisuais dos movimentos populares. O foco inicial do projeto está em acervos que documentam as lutas por reforma agrária do MST, direitos femininos e reprodutivos defendidos pela SOS Corpo, e a construção da comunicação popular pela TV Viva. Essa escolha se baseia na percepção de lacunas de memória e conhecimento sobre a força desses vídeos, especialmente em um período de efervescência na produção audiovisual.
Historicamente, a predominância das películas dificultava a produção de imagens pelos movimentos sociais, que, mesmo com formatos mais acessíveis como o super-8, encontravam barreiras significativas. Vinícius Andrade, um dos coordenadores do projeto, destaca que as lutas durante a reabertura democrática no Brasil foram impulsionadas pelo uso da tecnologia de vídeo, permitindo que os movimentos ampliassem seus debates.
A pesquisa do coletivo revelou uma riqueza na produção audiovisual, nas formas de organização política e nas parcerias entre os movimentos. Contudo, identificou também a necessidade de preservação dos acervos, que enfrentam desafios como deterioração devido a condições climáticas em Recife. O trabalho começou como um levantamento e evoluiu para um projeto abrangente de armazenamento, digitalização e circulação desse material importante para a memória coletiva.
Os acervos coletados variam em estado de preservação; a TV Viva, por exemplo, já tinha uma iniciativa de conservação, enquanto outros, como o do MST e da SOS Corpo, tinham fitas danificadas ou armazenadas de forma inadequada. Na fase seguinte do projeto, novos acervos foram incorporados, como os do Grupo Mulher Maravilha e do Etapas Vídeo, revelando um mosaico diversificado de lutas sociais e desafios enfrentados por esses grupos.
O Acervo do Vídeo Popular se torna um inventário valioso das formas de organização popular e da vida política em Pernambuco e no Brasil, refletindo saberes construídos ao longo de décadas de luta. O coletivo está empenhado em divulgar esse material, utilizando seu site e realizando sessões em comunidades e instituições culturais, como o Cinema São Luiz e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Hoje, o acesso às tecnologias digitais traz um novo cenário para a criação de narrativas e imagens dentro dos movimentos sociais, mas é importante que essas produções se inspirem na experiência do vídeo popular, que prioriza a coletividade e a horizontalidade nos processos criativos. Vinícius Andrade conclui que, em um ambiente dominado por plataformas corporativas, é crucial manter a perspectiva coletivizada das produções audiovisuais, que alinham os interesses dos movimentos sociais com suas lutas por justiça e visibilidade.
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