Destaques:
- África demonstra crescimento econômico robusto.
- Continente reduz dependência de ajuda externa.
- Estratégias inovadoras impulsionam resiliência.
A decisão de encerrar a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e os cortes na ajuda externa por parte de Washington, que destinava mais de US$ 80 bilhões anuais para programas globais, geraram apreensão generalizada. Ativistas e organizações internacionais previram uma catástrofe, especialmente para o continente africano, com projeções de milhões de mortes prematuras. No entanto, o cenário que se desenrolou foi surpreendente.
Contrariando as expectativas, a África não apenas evitou uma crise generalizada, mas registrou crescimento econômico em 2025 e projeta continuar essa trajetória em 2026. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), 11 das 15 economias de crescimento mais rápido no mundo em 2026 estarão na África, consolidando-a como a região de maior expansão global. Essa notável resiliência econômica levanta questões sobre os fatores que permitiram ao continente enfrentar um cenário tão adverso.
A desmistificação da dependência de ajuda externa na África
A percepção de que as economias africanas eram intrinsecamente dependentes da ajuda internacional tem sido amplamente questionada por especialistas. Embora a ajuda represente uma parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) em países que enfrentam crises humanitárias agudas, essa não é a realidade para a maioria das nações africanas. A maior parte da receita do continente provém de outras fontes.
Em 2023, por exemplo, a ajuda internacional ao desenvolvimento para a África totalizou US$ 73,8 bilhões, um valor inferior às remessas (US$ 90,8 bilhões), ao investimento estrangeiro direto (US$ 97,1 bilhões) e à arrecadação tributária (US$ 479,7 bilhões). A dependência da ajuda externa já apresentava uma tendência de queda antes mesmo dos cortes, com o número de países onde a ajuda superava 5% do PIB diminuindo de 27 em 2000 para 22 em 2022.
Impactos humanitários e a capacidade de resposta local
Apesar da resiliência econômica geral, os cortes na ajuda internacional não foram isentos de consequências graves em setores específicos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou que, entre janeiro e outubro de 2025, milhares de unidades de saúde em contextos humanitários foram afetadas, com centenas de fechamentos, impactando o acesso a serviços para milhões de pessoas. Houve relatos de aumento de mortes infantis por desnutrição em regiões como Katsina, na Nigéria.
Contudo, a capacidade de adaptação local se mostrou crucial. Um mês após o anúncio do fechamento da USAID, a Nigéria conseguiu mobilizar quase metade dos fundos que a agência havia disponibilizado. A sociedade civil e o setor privado também intensificaram sua atuação, com iniciativas como a do Centro de Pesquisa e Projetos para o Desenvolvimento (dRPC), que financiou ONGs nigerianas para preencher lacunas. A mobilização eficaz de recursos alternativos será determinante para mitigar os impactos a longo prazo.
Adaptação comercial e prudência fiscal em tempos de turbulência
Além dos cortes na ajuda, os países africanos enfrentaram a turbulência das tarifas impostas pelo governo Trump. Embora nações como Lesoto, com forte dependência de exportações têxteis para os EUA, tenham sido afetadas, a maioria dos países africanos direciona menos de 5% de suas exportações totais para o mercado americano. Essa dinâmica permitiu que muitos governos focassem em redirecionar sua produção e fortalecer relações comerciais com outros parceiros.
A África do Sul, por exemplo, buscou novos mercados na Ásia e priorizou o comércio intra-continental, que representou mais da metade de suas exportações agrícolas em 2025. Outros países, como Botsuana, adotaram uma postura de maior prudência fiscal, investindo em parcerias público-privadas para infraestrutura e abrindo setores à iniciativa privada. Essas medidas, embora por vezes impopulares, visam atrair investimentos e gerar empregos, com a expectativa de que reformas transparentes e eficazes conquistem o apoio popular.
Fatores-chave para a resiliência econômica da África e o futuro do continente
A notável resiliência econômica da África pode ser atribuída a uma combinação de fatores. Em primeiro lugar, muitos países implementaram políticas ágeis e inovadoras para mobilizar recursos internos. Em segundo lugar, houve uma diversificação estratégica de parceiros comerciais, com nações como Costa do Marfim, Egito e Marrocos expandindo suas relações com mercados regionais, europeus e asiáticos.
O aumento dos preços das commodities também desempenhou um papel importante, ajudando a reduzir pressões inflacionárias. Além disso, a solidariedade internacional não cessou completamente; países como Irlanda, Coreia e Espanha aumentaram seus orçamentos de ajuda ao desenvolvimento, enquanto outros, como Dinamarca e Noruega, mantiveram seus níveis. Os Emirados Árabes Unidos, por sua vez, intensificaram a assistência em segurança na África Subsaariana, complementando os esforços de desenvolvimento. Para mais informações sobre o crescimento do continente, consulte a Iniciativa para o Crescimento da África do Brookings Institution.
A capacidade de adaptação, a busca por autonomia financeira e a diversificação de parcerias são pilares que sustentam o surpreendente desenvolvimento econômico do continente, sinalizando um futuro de menor dependência e maior protagonismo global.
Fonte: bbc.com































