Marcha pela Memória na Argentina Comemora Vítimas Brasileiras da Ditadura
Nesta terça-feira, 24 de outubro, Buenos Aires será palco de um importante evento em homenagem às vítimas da última ditadura argentina (1976-1983). Pela primeira vez, a marcha pela memória incluirá a identidade de brasileiros que sofreram sob o regime militar, reforçando o compromisso com os direitos humanos na América Latina. O ato está agendado para as 14h e é promovido pelo movimento La Cámpora, em colaboração com diversas organizações, incluindo o Núcleo do PT na Argentina e convidados internacionais.
Entre os homenageados, destaca-se Francisco Tenório Cerqueira Júnior, um músico renomado que acompanhou artistas como Toquinho e Vinicius de Moraes durante turnês na América Latina. Tenório foi sequestrado por agentes da repressão política em março de 1976, poucos dias antes do golpe de Estado, e desapareceu sem deixar rastros. Recentemente, suas digitais foram identificadas por meio de esforços de uma equipe forense argentina.
Ao todo, a marcha prestará homenagem a 11 brasileiros e 4 filhos de pais brasileiros. As vítimas incluem estudantes, atletas, professores e militantes políticos, que estavam na Argentina, transitando ou exilados. A lista completa, com detalhes sobre cada caso, será divulgada durante o evento.
Pesquisa Revela a Realidade das Vítimas Estrangeiras
A realização dessa homenagem é fruto de uma pesquisa pioneira conduzida pela argentina Gabriela Llaser, que possui ascendência brasileira. Seu estudo, que investigou o controle migratório durante a ditadura, revelou um acervo pouco explorado sobre quantos estrangeiros foram vítimas do regime. “A pergunta sobre quantos estrangeiros foram atingidos pela ditadura me acompanhou durante todo o trabalho”, compartilha Llaser.
Sem uma base de dados consolidada, a pesquisadora cruzou informações de arquivos e entrevistas com diversas organizações, incluindo a Comissão da Verdade do Brasil e o Arquivo Nacional do Brasil. Os resultados do estudo destacam que a memória é um processo em construção e que muitos aspectos do regime militar ainda precisam ser desvendados, mesmo em um país reconhecido por suas políticas de memória, verdade e justiça.
Operação Condor e o Legado da Repressão
Os dados da pesquisa coincidem com os 50 anos da Operação Condor, uma rede de repressão que uniu ditaduras do Cone Sul, incluindo Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e outros, sob o apoio dos Estados Unidos. Essa estrutura foi responsável por uma série de sequestros, torturas e assassinatos de opositores políticos, criando um ambiente de perseguição sem fronteiras.
Os casos mais impactantes, como o de Sérgio Fernando Tula Silberberg, um jovem atleta desaparecido em Buenos Aires, ressaltam a brutalidade do sistema repressivo. “Era uma engrenagem política que capturava corpos em movimento, sem espaço seguro para quem fugia de uma ditadura”, explica Gabriela Llaser.
Desafios Atuais e o Papel da Memória
A luta pela memória das vítimas da ditadura ganha ainda mais relevância diante do atual cenário político na Argentina, sob a presidência de Javier Milei, que tem se mostrado avesso às políticas de memória e verdade. Organizações de direitos humanos, como as Mães da Praça de Maio e o CELS, alertam que o governo está atacando o consenso construído ao longo de décadas sobre os crimes do passado.
“Muitas vezes, os imigrantes são excluídos da narrativa política e da memória, mas resgatar esses nomes e histórias é fundamental”, defende Llaser, destacando a importância de reconhecer os crimes de Estado em um momento em que discursos negacionistas estão ressurgindo.
Martírio e Resistência: O Legado da Memória
As organizações de direitos humanos denunciam um desmonte generalizado das políticas de memória na Argentina, com cortes de orçamento e fechamento de instituições dedicadas à defesa dos direitos humanos. O Museu Sítio de Memória ESMA, considerado patrimônio da humanidade, enfrenta desafios financeiros que impactam suas atividades.
Diante dessa realidade, a marcha de terça-feira se torna um ato de resistência e um chamado à ação, reafirmando a importância de honrar a memória das vítimas e de lutar por justiça e verdade. A homenagem aos brasileiros desaparecidos é uma oportunidade de reescrever a história, dando voz àqueles que foram silenciados e reafirmando o compromisso com os direitos humanos na América Latina.
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