A evolução do ensino superior no Brasil nas últimas décadas apresenta um quadro complexo, muitas vezes enganoso. Embora o número de matrículas tenha saltado de 3,5 milhões para cerca de 10 milhões, essa expansão é em grande parte atribuída ao ensino a distância (EaD). Quando se observa a educação presencial, a realidade é preocupante, com uma estagnação que não acompanha o crescimento demográfico do país. A expansão significativa do setor público, embora tenha contribuído, não é suficiente para atender à demanda crescente por educação de qualidade.
No setor privado, o crescimento de matrículas presenciais foi de apenas 3% desde o início dos anos 2000, um número que está muito abaixo do aumento populacional. Isso resulta na transferência de muitos estudantes de cursos presenciais para plataformas online, criando uma situação em que os campi físicos se tornaram restritos a poucos cursos de elite. Em São Paulo, por exemplo, a participação relativa das matrículas caiu ao longo do tempo. As principais universidades públicas do estado, como USP, Unesp e Unicamp, mantêm suas matrículas presenciais em um nível pouco acima de 200 mil, um número que não reflete a diversidade e a complexidade da economia paulista.
A predominância do setor privado, que atualmente detém 80% das matrículas, contra 70% há duas décadas, resultou em uma “financeirização” do diploma, onde a quantidade se sobrepõe à qualidade. O Enade 2023 evidenciou essa crise, mostrando que o desempenho dos alunos de EaD em licenciaturas é alarmantemente baixo. Essa degradação educacional se estende a áreas críticas, como a medicina, onde as instituições privadas apresentam resultados insatisfatórios no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Esse cenário evidencia que a lógica financeira que rege essas instituições não garante a qualidade necessária, fazendo da expansão do setor público uma questão urgente de saúde pública.
O financiamento insuficiente da educação é uma das principais causas desse problema. Enquanto a responsabilidade pela educação básica é compartilhada entre municípios e estados, o ensino superior é dividido entre União e Estados de forma desigual. A participação do setor público no sistema educacional caiu de 30% para 20%, resultando em um sistema de “duas velocidades”: uma rede pública que, embora tenha crescido em termos absolutos, perdeu relevância, e um setor privado que abandonou a presencialidade para atender às massas.
A chamada “democratização” do acesso ao ensino superior gerou diplomas, mas também segrega o espaço acadêmico e oculta a falta de um conhecimento sólido. Sem uma regulação eficaz do EaD, fiscalização rigorosa das instituições privadas e um investimento robusto no setor público, o Brasil continuará a enfrentar um atraso educacional significativo. Para reverter essa situação, é necessário mais do que diplomas; é fundamental um investimento público substancial que promova o convívio acadêmico como um verdadeiro espaço de transformação. Sem isso, o país permanecerá preso à mediocridade educacional e à estagnação, comprometendo seu futuro.
Fonte: Link original



































