O papel dos cuidadores informais no Brasil é predominantemente ocupado por mulheres, que representam cerca de 90% desse grupo, segundo dados da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Esses cuidadores enfrentam uma série de desafios, incluindo sobrecarga de trabalho, falta de reconhecimento e escasso apoio. Em média, essas mulheres dedicam 9,6 horas semanais a mais em tarefas de cuidado e domésticas em comparação aos homens, muitas vezes sem remuneração ou formação adequada, conforme apontado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2022.
A professora Rosana Dantas, da Universidade de São Paulo (USP), observa que a desigualdade de gênero nesse contexto tem raízes culturais, onde o ideal de maternidade e feminilidade reforça a ideia de que o cuidado é uma responsabilidade feminina. Essa estrutura social não apenas subestima o trabalho de cuidado, mas também contribui para jornadas duplas ou triplas de trabalho para muitas mulheres, especialmente aquelas de classes sociais mais baixas ou de áreas rurais.
Um estudo realizado por Rosana com cuidadores de pacientes com insuficiência cardíaca revelou que a maioria dos 221 entrevistados eram mulheres com cerca de 53 anos, que muitas vezes nunca receberam ajuda nas suas tarefas. Além disso, 57% dessas cuidadoras também acumulam atividades remuneradas, o que intensifica seu estresse e sobrecarga. Os impactos desse modelo de cuidado afetam diretamente a saúde física e emocional dessas mulheres, resultando em menor qualidade de vida e dificuldades em manter sua própria saúde.
Miguel Hypólito Gimenez, estudante de psicologia da USP, complementa que os cuidadores não remunerados frequentemente apresentam menor letramento em saúde em comparação aos profissionais, o que pode aumentar o estresse tanto para eles quanto para os assistidos. Ele observa que muitas cuidadoras não se reconhecem como tal, o que pode ser um reflexo da falta de valorização do trabalho não remunerado. Essa não aceitação é reforçada pelo fato de que, além do cuidado, as mulheres ainda são responsáveis pela maior parte das tarefas domésticas, ampliando a pressão sobre elas.
Para abordar essas questões, a Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei nº 15.069/2024, reconhece o cuidado como um direito social e busca promover a corresponsabilização entre Estado, família, comunidade e setor privado. Além disso, iniciativas como a plataforma iSupport-Brasil, desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), oferecem treinamento online gratuito para cuidadores informais, focando no desenvolvimento de habilidades e na saúde mental deles.
Essas políticas e programas são essenciais para o reconhecimento do papel dos cuidadores informais, que desempenham uma função vital na sociedade, mas frequentemente ficam à margem de discussões sobre direitos e apoio. O reconhecimento explícito do cuidado informal como parte do sistema econômico e social é crucial para desenvolver políticas de apoio que incluam assistência financeira, emocional e formativa, além da expansão de serviços de cuidado de qualidade. A necessidade de cuidar também de quem cuida é um imperativo social que não pode ser ignorado.
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